Brasil bate recorde de transplantes, mas milhares ainda esperam
País fez cerca de 31 mil transplantes em 2025, mas fila por órgãos continua perto de 50 mil pessoas e expõe desafios regionais.

O Brasil chegou a um marco importante: cerca de 31 mil transplantes foram realizados em 2025, o maior número já registrado no país e 21% acima do resultado de 2022.
Entretanto, há outro número que precisa ser colocado ao lado desse recorde. Em setembro de 2026, aproximadamente 49,5 mil pessoas ainda aguardam um órgão para transplante, e a imensa maioria espera por um rim.
Os dois dados contam uma história de avanço, mas também de um sistema que ainda precisa crescer. O país ampliou transplantes, melhorou o transporte entre estados e registrou recordes nos procedimentos de rim e fígado.
Ao mesmo tempo, cerca de 45% das famílias entrevistadas ainda não autorizam a doação, e diferenças entre regiões mostram que a chance de um órgão ser identificado, captado e transplantado não é igual em todo o território brasileiro.
O recorde de 31 mil precisa ser entendido
Quando se fala em aproximadamente 31 mil transplantes realizados em 2025, esse total não representa apenas transplantes de órgãos sólidos. Ele reúne diferentes modalidades de transplante realizadas no país.
Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, foram 17.790 transplantes de córnea, 6.697 de rim, 3.993 de medula óssea, 2.573 de fígado e 427 de coração, além de outros procedimentos.
Entre os órgãos sólidos, dois resultados chamam atenção. O transplante renal chegou a 6.697 procedimentos em 2025, crescimento de 5,9% em relação a 2024. O transplante de fígado alcançou 2.573 cirurgias, alta de 4,8%. Os dois números foram recordes.
No caso dos rins, o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT) aponta ainda um detalhe importante: o crescimento das cirurgias foi maior do que o aumento da taxa de doadores efetivos, o que sugere melhor aproveitamento dos rins disponíveis.
Isso ajuda a entender por que aumentar o número de transplantes não depende apenas de encontrar mais doadores. É preciso aproveitar melhor os órgãos que já são disponibilizados, identificar rapidamente quem pode doar, localizar um receptor compatível e fazer toda essa engrenagem funcionar dentro de um intervalo de tempo bastante limitado.
A fila continua enorme, principalmente para quem precisa de um rim
O número de pessoas em lista de espera muda continuamente, à medida que novos pacientes entram, outros são transplantados e situações clínicas são atualizadas.
Dados do Sistema Nacional de Transplantes consultados em setembro de 2026 apontam cerca de 49,5 mil pessoas aguardando um transplante de órgão no Brasil. Mais de 45 mil esperam por um rim.
Aqui existe uma diferença importante entre os levantamentos. O Registro Brasileiro de Transplantes fechou dezembro de 2025 com 73.877 pacientes ativos em lista, mas esse número incluía também 32.639 pessoas aguardando transplante de córnea. Considerando apenas as categorias de órgãos sólidos apresentadas pelo relatório, eram mais de 41 mil pacientes.
No fechamento de 2025, a distribuição da lista era:
→ Rim: 38.925 pessoas;
→ Fígado: 1.458;
→ Coração: 372;
→ Pulmão: 245;
→ Pâncreas: 17;
→ Pâncreas e rim: 221;
→ Córnea: 32.639.
A concentração também variava muito entre os estados. Na fotografia consolidada pelo RBT em dezembro de 2025, São Paulo tinha 28.322 pacientes ativos quando órgãos e córneas eram somados. Minas Gerais tinha 7.975, Rio de Janeiro 6.653, Paraná 4.481, Bahia 3.827 e Pernambuco 3.608.
Outros estados apresentavam números menores, mas isso não significa necessariamente menor necessidade de transplantes.
Os números estaduais precisam ser lidos com cautela. Uma fila menor não significa automaticamente melhor acesso.
A quantidade de pessoas cadastradas também depende da existência de centros transplantadores, encaminhamento dos pacientes, capacidade de diagnóstico, modalidades oferecidas no estado e acesso à própria avaliação para inclusão em lista.
O CEP ainda pesa na possibilidade de receber um transplante
Talvez uma das informações que melhor mostre o tamanho da desigualdade esteja nas taxas por população.
Em 2025, o Sul registrou 34,8 doadores efetivos por milhão de habitantes. No Sudeste foram 21,0. No Nordeste, 16,7. No Centro-Oeste, 15,2. Na Região Norte, apenas 8,5 doadores efetivos por milhão.
A diferença aparece também nas cirurgias. Enquanto o Sul realizou 44,3 transplantes renais por milhão de habitantes e o Sudeste, 38,7, a taxa foi de 23,5 no Nordeste, 18,8 no Centro-Oeste e 10,7 na Região Norte.
Para o transplante de fígado, o contraste também é expressivo: foram 17,9 procedimentos por milhão de habitantes no Sul, 14 no Sudeste, 11,8 no Centro-Oeste, 9,2 no Nordeste e apenas 2,2 por milhão na Região Norte.
E há modalidades ainda mais concentradas. Em 2025, o RBT não registrou transplantes de coração ou pulmão realizados na Região Norte.
Em transplantes, distância, estrutura hospitalar e tempo fazem parte da mesma equação.
Não basta existir um órgão disponível em algum ponto do país. É preciso haver hospitais preparados para identificar potenciais doadores, equipes capazes de realizar a captação e o transplante, exames de compatibilidade, centrais funcionando de maneira integrada e condições para levar o órgão até o receptor em tempo adequado.
Um órgão disponível ainda precisa vencer uma corrida contra o relógio
Depois da identificação de um potencial doador, começa uma cadeia complexa. A morte encefálica precisa ser confirmada de acordo com critérios médicos, a família é entrevistada, os órgãos são avaliados, possíveis receptores são identificados e as equipes precisam organizar retirada, transporte e cirurgia.
Existe ainda o chamado tempo de isquemia, que é, de forma simplificada, o período em que o órgão consegue permanecer fora do corpo em condições adequadas para ser transplantado. Esse limite varia conforme o órgão e torna a logística decisiva.
Em 2025, a distribuição interestadual coordenada pela Central Nacional de Transplantes permitiu a realização de 867 transplantes renais, 375 de fígado, 100 de coração, 25 de pulmão e quatro de pâncreas.
No mesmo ano, foram realizados 4.808 voos para transporte de órgãos e equipes, segundo o Ministério da Saúde, aumento de 22% em relação a 2022.
Isso ajuda a visualizar a dimensão do trabalho. Um doador pode estar em uma cidade enquanto o receptor compatível está a centenas ou milhares de quilômetros.
A central precisa cruzar informações clínicas, acionar equipes, definir o transporte e garantir que tudo aconteça antes que o órgão deixe de ser viável.
Por isso, melhorar aeroportos, rotas, articulação com companhias aéreas, transporte terrestre e comunicação entre centrais também é uma política de saúde.
De quase 16 mil potenciais doadores, pouco mais de 4 mil se tornaram efetivos
Outro ponto ajuda a explicar por que a fila continua grande mesmo em um ano de recordes.
Em 2025, foram notificadas 15.940 pessoas como potenciais doadores, segundo o RBT. Ao final do processo, 4.335 se tornaram doadores efetivos de órgãos.
Isso não significa que todos os demais poderiam ter doado. Existem contraindicações médicas, parada cardíaca antes da captação e outras situações que podem inviabilizar o uso dos órgãos.
Mas existe um obstáculo particularmente relevante: a decisão familiar.
Em 2025, 4.200 famílias não autorizaram a doação, o equivalente a aproximadamente 45% das entrevistas familiares realizadas.
É importante tratar esse número com cuidado. A entrevista acontece em um dos momentos mais difíceis que uma família pode viver, após a confirmação da morte de alguém próximo.
Além disso, especialistas chamam atenção para a importância do acolhimento e da preparação das equipes responsáveis por conversar com os familiares.
Ou seja, reduzir a recusa não significa simplesmente cobrar um “sim” de quem está vivendo o luto. Significa também melhorar informação, comunicação, treinamento profissional e acolhimento.
Mais equipes e melhor identificação podem ampliar as doações
O país já começou a reforçar alguns desses pontos. O número de equipes de captação passou de 1.537 em 2022 para cerca de 1.600 em 2026, segundo o Ministério da Saúde.
Além disso, a nova Política Nacional de Doação e Transplantes tornou obrigatória a criação de Equipes Hospitalares de Doação para Transplantes (e-DOT) em hospitais com determinados perfis, como unidades com terapia intensiva, atendimento a pacientes neurocríticos, referência para trauma e hospitais transplantadores.
Essas equipes têm uma função que começa antes da cirurgia: ajudar o hospital a reconhecer potenciais doadores, organizar o processo e garantir que uma possibilidade de doação não passe despercebida.
O Programa Nacional de Qualidade na Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (PRODOT) também prevê capacitação, monitoramento de indicadores e incentivo financeiro às equipes hospitalares. O objetivo é melhorar justamente pontos que ainda fazem potenciais doações se perderem ao longo do caminho.
A lógica é simples: não existe transplante sem que o potencial doador seja identificado, notificado, avaliado e tenha todo o processo conduzido corretamente.
Melhorar a logística também continua sendo estratégico. Em um país continental, aumentar o intercâmbio entre estados pode fazer com que um órgão que não encontre receptor adequado perto do local da doação seja utilizado em outra região.
Quer ser doador? A conversa mais importante acontece em casa
Existe uma orientação prática que qualquer pessoa pode levar desta notícia.
No Brasil, a retirada de órgãos após a morte depende da autorização da família. Não basta ter manifestado informalmente a vontade de ser doador se os familiares responsáveis não autorizarem o procedimento.
Por isso, o Ministério da Saúde recomenda que quem deseja doar deixe essa decisão clara para as pessoas próximas.
→ Converse sobre doação de órgãos em um momento tranquilo, antes que exista qualquer situação de emergência.
→ Diga claramente que deseja ser doador após a morte.
→ Explique essa vontade às pessoas da família que poderão ser consultadas.
→ Aproveite a conversa para esclarecer dúvidas e buscar informações em fontes oficiais.
Não é necessário registrar a decisão em cartório nem incluir a informação em documento para que a doação aconteça. O passo essencial é fazer a família conhecer sua vontade.
O recorde brasileiro mostra que o sistema consegue avançar. Mais transplantes foram realizados, rins disponíveis vêm sendo melhor aproveitados e a distribuição entre estados ganhou importância. Mas a fila de quase 50 mil pessoas mostra que bater recordes não encerra o problema.
Entre a possibilidade de uma doação e o transplante existem muitas etapas, assim, melhorar cada uma delas significa transformar mais órgãos disponíveis em transplantes efetivamente realizados.
💬 Sua família sabe se você gostaria de ser doador de órgãos? Talvez essa seja uma conversa que vale a pena ter enquanto todos podem falar sobre o assunto com calma.
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Fontes:
Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Registro Brasileiro de Transplantes 2025, Ano XXXII, nº 4. Dados de doação, transplantes, lista de espera e atividade por regiões e estados. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 28 set. 2026.
Ministério da Saúde. Sistema Nacional de Transplantes. Informações sobre transplantes, lista de espera, doação de órgãos e funcionamento do SNT. Disponível aqui. Acesso em: 28 set. 2026.
Ministério da Saúde. Como ser doador de órgãos. Sistema Nacional de Transplantes. Disponível aqui. Acesso em: 28 set. 2026.
Ministério da Saúde. Relatório de Gestão Integrado 2025. Dados sobre transplantes de órgãos sólidos, doadores efetivos e desempenho do Sistema Nacional de Transplantes. Disponível aqui. Acesso em: 28 set. 2026.
Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025. Estabelece a Política Nacional de Doação e Transplantes e define o Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes. Republicada em 21 jan. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 28 set. 2026.
Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 8.249, de 3 de novembro de 2025. Dispõe sobre o Programa Nacional de Qualidade na Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (PRODOT) e o Incentivo Financeiro de Qualificação em Doação e Transplantes (IFQ-DOT). Disponível aqui. Acesso em: 28 set. 2026.
Ministério da Saúde. Legislação do Sistema Nacional de Transplantes. Reúne a regulamentação vigente, incluindo as Portarias GM/MS nº 8.041/2025 e nº 8.249/2025. Disponível aqui. Acesso em: 28 set. 2026.
Ministério da Saúde. Publicações do Sistema Nacional de Transplantes. Inclui materiais técnicos sobre retirada, preservação, acondicionamento, armazenamento e transporte de órgãos. Disponível aqui. Acesso em: 28 set. 2026.



