“Chip da beleza” volta à mira de médicos: entidades pedem proibição
Carta de 12 entidades alerta para riscos de implantes hormonais manipulados e reforça que eles não devem ser confundidos com terapia da menopausa.

Doze entidades médicas e científicas voltaram a colocar os chamados “chips da beleza” no centro de um alerta de saúde.
Em carta divulgada em 1º de outubro, durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa, elas pediram medidas para impedir a manipulação, formação de estoques, comercialização, distribuição, publicidade e uso de implantes hormonais manipulados no Brasil.
O documento aponta falta de estudos clínicos adequados para várias das promessas associadas a esses produtos e chama atenção para possíveis complicações graves.
Há, porém, uma diferença fundamental que precisa ficar clara desde o começo: esse alerta não significa que todo tratamento hormonal seja inadequado ou perigoso.
As próprias entidades ressaltam que a terapia hormonal da menopausa, quando corretamente indicada, individualizada e respeitando contraindicações, é um tratamento respaldado por evidências científicas.
O problema discutido na carta são especialmente as formulações manipuladas em forma de implantes, isoladas ou combinadas, sem avaliação adequada de eficácia e segurança.
O que são os chamados “chips da beleza”?
Apesar do apelido, não estamos falando de um chip eletrônico. O termo “chip da beleza” passou a ser usado comercialmente para descrever implantes colocados sob a pele que liberam substâncias no organismo durante um período prolongado.
Essas formulações manipuladas podem conter hormônios como testosterona, gestrinona e estradiol, além de diferentes combinações.
Segundo a carta das entidades, esses produtos têm sido oferecidos para objetivos muito variados: emagrecimento, ganho de massa muscular, melhora da disposição e do desempenho físico, aumento da libido, antienvelhecimento, sintomas da menopausa e condições ginecológicas.
E é justamente essa lista extensa de promessas que preocupa os especialistas. Segundo as entidades, não existem ensaios clínicos de qualidade que sustentem os benefícios anunciados nem dados de segurança adequados para respaldar o uso desses implantes para essas diferentes finalidades.
Ensaios clínicos são estudos realizados de maneira controlada para verificar se um tratamento realmente funciona e quais riscos pode provocar. Eles são uma etapa essencial para que seja possível responder perguntas aparentemente simples, mas decisivas: qual dose usar? Por quanto tempo? Para qual paciente? Quais efeitos adversos podem surgir? E o que acontece depois de exposições repetidas?
No caso dos implantes manipulados discutidos na carta, as entidades argumentam que ainda faltam respostas confiáveis para várias dessas questões.
257 complicações e dois óbitos aparecem nos registros citados
Um dos dados que mais chama atenção é o levantamento da plataforma Vigicom Hormônios, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Segundo informações citadas pela Folha de S.Paulo, foram registrados 257 relatos de complicações médicas e dois óbitos associados ao uso de implantes. As mulheres representam 63% dos casos registrados, e em 45,9% dos relatos os hormônios haviam sido utilizados para finalidade estética.
É importante entender o que esses números significam. Relatos de eventos adversos funcionam como um sinal de farmacovigilância, isto é, o acompanhamento de problemas que podem estar relacionados ao uso de medicamentos ou produtos de saúde.
Um relato não demonstra sozinho que determinado produto causou o problema, porque cada caso precisa ser investigado e outros fatores podem estar envolvidos.
Ainda assim, a existência desses registros, somada à falta de estudos clínicos robustos sobre várias formulações e indicações, sustenta a preocupação manifestada pelas sociedades médicas.
Entre os problemas associados ao uso de implantes e hormônios citados pelas fontes estão alterações de colesterol e triglicérides, hipertensão (pressão alta), arritmias, acne, queda de cabelo, alterações na voz, insônia e agitação.
A carta também levanta preocupações relacionadas a problemas hepáticos, cardiovasculares e metabólicos, tromboembolismo (formação de coágulos que podem obstruir vasos sanguíneos), acidente vascular cerebral e possíveis efeitos relacionados ao risco de câncer.
No caso da gestrinona, as entidades citam ainda possíveis efeitos como aumento de pelos, acne, queda de cabelo, mudança da voz e aumento do clitóris, além de alterações metabólicas que podem persistir.
O implante traz um problema adicional: não basta “parar de tomar”
Existe outro ponto importante nessa discussão. Com um comprimido, por exemplo, diante de determinado efeito adverso o médico pode avaliar a redução da dose, a troca do medicamento ou a interrupção do tratamento.
Entretanto, com um implante que continua liberando uma substância no organismo, essa possibilidade pode ser bem mais limitada.
Para visualizar melhor, pense na diferença entre fechar uma torneira e tentar interromper algo que já foi colocado sob a pele para liberar uma substância continuamente durante meses. Não são situações equivalentes.
A carta alerta que, se surgirem concentrações hormonais elevadas ou efeitos adversos, não é possível simplesmente reduzir de imediato a quantidade que o implante está liberando.
A retirada também pode ser difícil ou incompleta em determinados tipos de pellets bioabsorvíveis, pequenos dispositivos que vão se degradando no organismo.
É por isso que dose, composição, via de administração e capacidade de interromper o tratamento são aspectos tão importantes quando se avalia a segurança de uma terapia hormonal.
Mas terapia hormonal da menopausa não é a mesma coisa
Talvez esta seja a distinção mais importante para quem lê uma notícia sobre “chips da beleza” e fica com receio de qualquer tratamento hormonal.
Terapia hormonal da menopausa e implantes hormonais manipulados vendidos com diferentes promessas não podem ser colocados no mesmo pacote.
A própria Carta do Rio de Janeiro, assinada pelas entidades, afirma que a terapia hormonal da menopausa corretamente indicada é legítima, eficaz e respaldada por sólida evidência científica. Quando respeitadas as indicações e contraindicações, ela pode melhorar a saúde e a qualidade de vida de mulheres que precisam do tratamento.
O que não pode ser feito, segundo as entidades, é pegar o conhecimento acumulado sobre medicamentos, doses e vias de administração adequadamente estudados e concluir que ele vale automaticamente para qualquer formulação hormonal manipulada colocada sob a pele.
A diretriz brasileira sobre climatério e menopausa da Febrasgo já destaca justamente esse ponto: boa parte do conhecimento científico sobre benefícios e riscos da terapia hormonal foi construída a partir de formulações e vias específicas estudadas.
Esses resultados não podem simplesmente ser transferidos para implantes manipulados sem que essa forma de tratamento também passe por estudos adequados.
Portanto, uma mulher que utiliza terapia hormonal prescrita para sintomas da menopausa não deve interromper o tratamento por conta própria ao ler notícias sobre “chips da beleza”. A indicação precisa ser discutida individualmente com o profissional que acompanha seu caso.
E a Anvisa já não tinha proibido esses implantes?
Sim, mas a história regulatória é um pouco mais complexa.
Em outubro de 2024, a Anvisa determinou preventivamente a suspensão da manipulação, comercialização, propaganda e uso de implantes hormonais manipulados após receber denúncias sobre problemas relacionados a esses produtos.
Posteriormente, a regulamentação passou a estabelecer condições específicas para a manipulação.
Atualmente, a Anvisa informa que é proibido comercializar e utilizar implantes hormonais manipulados à base de esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos para finalidade estética, ganho de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo.
Também é proibida a propaganda ao público em geral de qualquer implante hormonal manipulado.
Quando houver indicação médica admitida pelas regras sanitárias, a prescrição de implante hormonal manipulado exige requisitos como receita de controle especial, indicação da condição clínica tratada, esclarecimento dos riscos, termo de responsabilidade e notificação de eventos adversos.
A agência também estabelece que farmácias só podem manipular substâncias previamente avaliadas pela Anvisa e que formulações manipuladas devem atender a uma necessidade específica do paciente quando medicamentos registrados disponíveis no mercado não atenderem a essa necessidade.
O pedido apresentado agora pelas 12 entidades vai além: elas defendem uma proibição abrangente dos implantes hormonais manipulados no país.
O documento pede ações envolvendo Anvisa, Ministério da Saúde, conselhos profissionais, Ministério Público, Defensorias Públicas, órgãos de defesa do consumidor e Legislativo, além do fortalecimento da fiscalização e da notificação de eventos adversos.
“Bioidêntico” não significa automaticamente mais seguro
Outra palavra que costuma aparecer na divulgação de tratamentos hormonais é “bioidêntico”. O termo pode transmitir ao consumidor a impressão de algo mais natural e, portanto, automaticamente mais seguro.
Não é tão simples.
As entidades criticam especificamente o uso da palavra como argumento de marketing para os implantes. Uma substância ser chamada de bioidêntica não demonstra, por si só, que determinada formulação, dose ou via de administração tenha eficácia e segurança comprovadas.
É preciso separar a característica química do hormônio da avaliação do tratamento completo. Para saber se uma terapia é adequada, entram na conta a substância utilizada, a dose, a forma de administração, a indicação, a qualidade da formulação, os estudos realizados e as características de cada paciente.
O que observar antes de aceitar um tratamento hormonal?
A discussão traz alguns cuidados importantes para quem recebe uma proposta de tratamento com hormônios:
→ Desconfie de promessas amplas envolvendo simultaneamente emagrecimento, ganho de músculos, rejuvenescimento, disposição e melhora de desempenho.
→ Pergunte qual é exatamente a substância prescrita, qual a indicação médica e se existe medicamento registrado e estudado para aquela finalidade.
→ Peça explicações sobre benefícios esperados, riscos, dose, duração do tratamento e o que pode ser feito caso apareçam efeitos adversos.
→ Não confunda propaganda de “chip da beleza” com terapia hormonal da menopausa corretamente indicada e acompanhada.
→ Se você já faz terapia hormonal, não suspenda ou modifique o tratamento por conta própria. Converse com o profissional responsável pela prescrição.
A discussão que voltou à tona não é simplesmente sobre usar ou não hormônios. O ponto central é usar um tratamento cuja indicação, dose, composição e segurança possam ser avaliadas com evidências científicas e acompanhamento adequado.
Para mulheres na menopausa, essa diferença é especialmente importante. O medo provocado sobre “chips da beleza” não deve afastar pacientes de tratamentos hormonais legítimos quando eles são realmente indicados.
Ao mesmo tempo, promessas estéticas ou de rejuvenescimento não transformam uma formulação sem evidências suficientes em um tratamento comprovado.
No fim das contas, o nome comercial pode soar moderno, mas a pergunta continua sendo bastante tradicional na medicina: há evidência de que funciona e segurança suficiente para usar?
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Fontes:
Folha de S.Paulo. Entidades médicas pedem à Anvisa proibição de chips da beleza. Publicado em 1º de outubro de 2026. Disponível aqui. Acesso em: 2 out. 2026.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Carta do Rio de Janeiro: Posicionamento das sociedades médicas sobre implantes hormonais manipulados. Publicado em 1º de outubro de 2026. Disponível aqui. Acesso em: 2 out. 2026.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Implantes hormonais. Disponível aqui. Acesso em: 2 out. 2026.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Febrasgo alerta: implantes hormonais manipulados não têm comprovação de segurança e eficácia. Publicado em 18 de maio de 2026. Disponível aqui. Acesso em: 2 out. 2026.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa. Disponível aqui. Acesso em: 2 out. 2026.



