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Fiz o exame. E agora? O cuidado com a saúde da mulher vai além de outubro

Mamografia e exame do colo do útero: o que mudou nas regras do SUS e dos planos de saúde e como acompanhar o seu resultado depois do exame.

9 min de leituraPublicado em 26/10/2026
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Fiz o exame. E agora? O cuidado com a saúde da mulher vai além de outubro

Nos últimos dias de outubro, o laço rosa ainda enfeita fachadas, redes sociais e lapelas, mas uma pergunta já deveria estar na mesa de quem fez mamografia ou o exame do colo do útero este mês: e agora?

Fazer o exame é a primeira metade do cuidado. A segunda é saber o resultado, entender o que ele significa e ter claro qual é o próximo passo, algo que depende da mulher, dos serviços de saúde, das regras de acesso e da avaliação clínica de cada caso.

É nessa segunda metade, que o calendário de campanha raramente alcança, onde a prevenção e o diagnóstico precoce se confirmam ou se perdem.

Quando a campanha termina, o cuidado continua

O rastreamento, que é quando o exame é feito em quem não tem sintomas (justamente para achar a doença cedo), muitas vezes é lembrado como um momento único: a mulher vai, faz e pronto.

Na vida real, ele é uma sequência. Primeiro vem o exame, depois o laudo (o documento com o resultado), depois a consulta em que alguém explica o que está escrito nele.

Se algo precisar ser esclarecido, entram o exame complementar, a biópsia (retirada de um pedacinho de tecido para análise em laboratório) e, quando for o caso, o tratamento.

Cada passagem de uma etapa para outra é um ponto em que o cuidado pode se perder.

Uma campanha trabalha com a média: mulheres de determinada idade devem fazer determinado exame.

A vida real trabalha com exceções: a mulher com histórico na família, a que notou uma alteração, a que fez o exame e nunca recebeu o resultado.

O desafio de um sistema de saúde é conciliar as duas coisas, com regras claras que organizem o acesso sem tirar do profissional a avaliação de cada caso.

Sabe quando você compra algo pela internet e acompanha o código de rastreio até a encomenda chegar à porta? Com a saúde, a lógica deveria ser parecida: o exame "saiu", mas é preciso garantir que o resultado chegue até você e seja compreendido.

O que a nova regra dos planos de saúde muda, e o que não muda

Desde 1º de outubro, os planos de saúde são obrigados a cobrir a mamografia digital sempre que houver indicação médica, sem restrição de idade ou de gênero.

Até então, a cobertura obrigatória estava limitada a mulheres de 40 a 69 anos. A decisão foi tomada em 3 de setembro pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS, o órgão que regula os planos) e anunciada em 10 de setembro.

Segundo a agência, com a evolução da tecnologia e o uso amplo do exame digital, deixou de haver justificativa para manter esses limites.

O que a regra não faz é transformar a mamografia em exame de rotina para qualquer pessoa, em qualquer idade.

A porta de entrada continua sendo a indicação médica, que considera a história e os riscos de cada paciente.

A regra define o que o plano precisa pagar; o que cada pessoa precisa fazer segue sendo uma conversa entre ela e o profissional de saúde. E vale lembrar que o exame deixou de ser uma questão só de mulheres: a cobertura vale para pessoas de qualquer gênero que tenham indicação.

Como ler o laudo da mamografia sem entrar em pânico

O laudo costuma trazer uma sigla: BI-RADS, o qual compreende um sistema internacional que classifica o resultado da mamografia em categorias de 0 a 6, para que médicos de qualquer lugar leiam o exame do mesmo jeito. Cada número aponta uma conduta.

Olha só como funciona na realidade:

→ Categorias 1 e 2: sem sinal de câncer (a 2 descreve achados benignos). O caminho é seguir o rastreamento de rotina.

→ Categoria 3: achado provavelmente benigno, que pede acompanhamento, com novos exames em intervalos definidos pelo médico.

→ Categoria 0: o exame detectou algo que precisa ser melhor estudado, com imagens extras, ultrassonografia ou comparação com exames anteriores. Segundo o INCA, todo resultado 0 implica chamar a mulher de volta.

→ Categorias 4 e 5: achado suspeito (4) ou altamente suspeito (5) de câncer, com indicação de biópsia para confirmar.

Ser chamada de volta assusta, mas é comum. Em 2022, 11,8% das mamografias de rastreamento registradas no SISCAN (o Sistema de Informação do Câncer, que reúne resultados de exames de mama e de colo do útero) saíram como categoria 0, pouco mais de uma em cada dez.

Já as categorias 4 e 5 somaram menos de 1% dos laudos. O INCA ressalva que esses números se limitam aos serviços que usam o sistema, então o retrato nacional pode ser diferente.

O que eles mostram é que ser convocada para complementar a avaliação é bem mais frequente do que receber um laudo de suspeita forte.

Colo do útero: o que muda com o teste de DNA-HPV

No colo do útero, a novidade no SUS é o teste de DNA-HPV, que procura o material genético de 14 tipos de HPV (o papilomavírus humano) com potencial de causar câncer.

Segundo o INCA, ele é mais sensível que o papanicolau, o famoso PCCU ou exame preventivo, ou seja, tem mais chance de encontrar o problema quando ele existe.

As diretrizes nacionais o recomendam para mulheres de 25 a 64 anos, com intervalo de até cinco anos entre os exames quando o resultado é negativo.

Aqui, o "e agora?" depende do resultado. Na prática, é assim: se o teste é negativo, o rastreamento volta em até cinco anos. Se é positivo para os tipos 16 ou 18, a mulher segue direto para a colposcopia, que é o exame em que o médico observa o colo do útero com uma lente de aumento.

Se é positivo para outros tipos oncogênicos, a citologia (análise das células) funciona como triagem, e a colposcopia é indicada se ela vier alterada.

Teste positivo não é diagnóstico de câncer. Significa que o vírus foi encontrado, antes mesmo de qualquer lesão.

O próprio INCA prevê que o novo teste vai aumentar o número de mulheres com resultado alterado, e é justamente por isso que os passos seguintes ganham peso: de nada adianta detectar cedo se a mulher não chega à colposcopia.

Prazos, responsáveis e o elo que costuma ficar invisível

A lei brasileira já põe um relógio nesse trajeto. A Lei 13.896/2019 determina que, quando a principal suspeita é de câncer, os exames necessários para esclarecer o caso sejam feitos no SUS em até 30 dias, mediante solicitação fundamentada do médico responsável.

E a Lei 12.732/2012 garante o início do primeiro tratamento no SUS em até 60 dias, contados a partir do laudo que confirma o diagnóstico (o laudo patológico, resultado da análise do tecido retirado na biópsia).

Pelas orientações do Ministério da Saúde para a atenção primária, porta de entrada do SUS, o resultado da mamografia deve ser repassado e explicado à mulher durante a consulta.

Se houver alteração, ela deve ser encaminhada ao serviço de referência para confirmação do diagnóstico e início do tratamento, e a atenção primária é descrita como a principal responsável pelo acompanhamento ao longo do tempo.

E entre esses prazos e fluxo, os serviços devem reduzir a chance de o resultado se perder no caminho.

E quem tem plano de saúde? Aí o relógio é outro. Os prazos de 30 e 60 dias valem para o SUS; na saúde suplementar , o tempo máximo de espera é definido pela ANS, na Resolução Normativa nº 259, e muda conforme o tipo de atendimento.

Contados em dias úteis, são até 7 dias para consulta com ginecologista, até 14 dias para outras especialidades médicas (como a mastologia, que cuida das mamas), até 10 dias para exames de imagem, como a mamografia, e até 21 dias para procedimentos de alta complexidade.

Se o prazo estourar, vale pedir à operadora uma alternativa de atendimento, anotar o número de protocolo e registrar reclamação na ANS.

Fiz o exame, e agora? Cinco passos para não perder o fio

Se o exame já foi feito, uma pergunta resume quase tudo e vale levar anotada:

"Qual é o meu resultado, o que ele significa e qual é o próximo passo, com data?"

→ Combine como o resultado chegará. Pergunte se ele será entregue em consulta, retirado na unidade ou enviado por outro meio, e em quanto tempo.

→ Peça o laudo por escrito e guarde uma cópia. Anote a categoria BI-RADS da mamografia ou o resultado do teste de HPV, com a data.

→ Descubra o próximo passo e a data. Pode ser repetir o rastreamento no intervalo de rotina, fazer um exame complementar, uma biópsia ou uma colposcopia. Quem tem plano de saúde precisa do pedido médico para garantir a cobertura da mamografia digital, sem barreira de idade ou gênero.

→ Se houver suspeita de câncer, lembre os prazos. Exames de confirmação em até 30 dias, com pedido fundamentado do médico, e tratamento no SUS em até 60 dias depois do laudo patológico. Em caso de atraso, vale registrar a situação formalmente, por exemplo na ouvidoria do serviço.

→ Mantenha o ritmo do rastreamento. Siga a orientação do profissional para a sua idade e o seu risco e, no colo do útero, repita o teste de DNA-HPV no intervalo indicado quando o resultado é negativo.

Quando procurar ajuda?

O Ministério da Saúde orienta que a mulher observe as próprias mamas no dia a dia e procure o serviço de saúde diante de alterações suspeitas, como um nódulo (caroço), mudança na pele ou saída de secreção pelo mamilo.

Não espere a data do próximo exame se isso acontecer, mesmo que a última mamografia tenha sido normal. O mesmo vale se o resultado não chegou, se um exame complementar foi pedido e ninguém marcou ou se o laudo continua incompreensível depois da consulta.

O laço rosa sai das fachadas em novembro, mas o laudo continua na gaveta, na caixa de entrada ou na memória de quem fez o exame. É ali, mais do que no calendário, que a prevenção se completa.

Regras claras ajudam, e a ampliação da cobertura e dos testes é um avanço. Mas nenhuma regra, por melhor que seja, lê o laudo por você nem decide sozinha o que é melhor para o seu caso: isso depende de informação, de acompanhamento e de uma boa conversa com quem cuida.

Exame feito é o começo; resultado acompanhado é o cuidado completo.

💬 Você fez a mamografia ou o exame do colo do útero este ano? Conta pra gente nos comentários: alguém explicou o seu resultado e combinou com você o próximo passo?

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Fontes:

Agência Brasil. Plano de saúde terá que cobrir mamografia digital para todas as idades. 10 set. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 26 out. 2026. Ministério da Saúde. Linhas de cuidado: câncer de mama, atenção primária, rastreamento e diagnóstico. Disponível aqui. Acesso em: 26 out. 2026.

Instituto Nacional de Câncer (INCA). Monitoramento do percentual de resultados categoria 0 BI-RADS no rastreamento do câncer de mama (SISCAN, dados de 2022). Jun. 2023. Disponível aqui. Acesso em: 26 out. 2026.

Instituto Nacional de Câncer (INCA). Rastreamento do câncer do colo do útero conta agora com teste de DNA-HPV, que amplia intervalo entre exames para até cinco anos. Rede Câncer, n. 59, out. 2025. Disponível aqui. Acesso em: 26 out. 2026.

Vanessa MirandaEditora Técnica e Enfermeira Mestre em SaúdeRevisado por: Diogo Strauch RibeiroMédico Clínico Geral — CRM 5293516-6
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