Infarto aos 32 anos: por que mulheres jovens também podem estar em risco?
Caso da modelo Giane Alves chama atenção para um problema raro entre jovens, mas que pode ocorrer mesmo sem os fatores de risco mais conhecidos.

A morte da modelo Giane Alves, aos 32 anos, após um Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) chama atenção justamente por reunir características que muita gente não associa a uma emergência cardíaca: juventude, vida considerada saudável e ausência, segundo informações divulgadas por seu agente, de problemas clínicos anteriores.
Giane havia dado à luz seu segundo filho pouco mais de um mês antes e passou mal enquanto acompanhava o bebê em uma consulta.
O caso desperta uma pergunta importante: como uma mulher tão jovem pode sofrer um infarto? A resposta não é única.
Ser jovem, não fumar, ter hábitos saudáveis e não conhecer uma doença cardíaca prévia reduz diversos riscos, mas não torna uma pessoa imune a um evento cardiovascular.
Além dos mecanismos mais conhecidos do infarto, existem causas menos comuns que ganham importância justamente quando o episódio acontece em pessoas mais jovens.
No caso de Giane, porém, é fundamental estabelecer um limite: as informações tornadas públicas permitem dizer que a morte foi atribuída a um infarto agudo do miocárdio, mas não são suficientes para determinar o mecanismo que provocou esse infarto.
Portanto, não é possível afirmar que a gestação recente, uma dissecção coronariana ou qualquer outra condição específica tenha causado sua morte, mas isso não impede que o caso abra espaço para uma discussão importante sobre saúde cardiovascular entre pessoas mais jovens.
Entender que existem diferentes causas de infarto, reconhecer os sinais de alerta e saber quando procurar atendimento pode ajudar a evitar que sintomas importantes sejam subestimados simplesmente por causa da idade.
Infarto não acontece apenas em quem tem colesterol alto ou fuma
Quando pensamos em infarto, é comum imaginar uma artéria que foi ficando estreita ao longo dos anos por causa do acúmulo de placas de gordura. Esse processo recebe o nome de aterosclerose.
Assim, quando uma placa se rompe e favorece a formação de um coágulo, o sangue pode deixar de chegar adequadamente a uma parte do músculo cardíaco.
Fatores como tabagismo, pressão alta, diabetes, colesterol elevado, sedentarismo e alimentação inadequada estão entre os elementos conhecidos que aumentam o risco cardiovascular.
Mas essa não é a única história possível.
Em mulheres antes da menopausa, a American Heart Association chama atenção para causas de síndrome coronariana aguda que não dependem necessariamente da aterosclerose tradicional.
Síndrome coronariana aguda é o conjunto de situações em que o fluxo de sangue para o coração cai de forma súbita e inclui o infarto.
Entre essas causas estão a dissecção espontânea da artéria coronária, espasmos das coronárias e embolias. Isso ajuda a entender por que a ausência dos fatores de risco clássicos não exclui completamente a possibilidade de um infarto em uma mulher jovem.
Dissecção coronariana: uma causa diferente de infarto
Uma das condições que merece atenção nessa faixa etária é a dissecção espontânea da artéria coronária (SCAD). Para entender, pense na parede de uma artéria como uma estrutura formada por camadas. Nessa condição, ocorre uma separação ou ruptura espontânea na parede.
Então, o sangue pode entrar entre as camadas e formar uma espécie de abaulamento para dentro da artéria. Com menos espaço para o sangue passar, o fluxo que alimenta o músculo do coração pode diminuir ou ser bloqueado, provocando um infarto.
É um mecanismo diferente daquele provocado pela placa de gordura típica da aterosclerose.
A American Heart Association destaca que a maioria das pessoas diagnosticadas com SCAD são mulheres, muitas vezes sem os fatores tradicionais associados à doença cardíaca.
A condição é reconhecida como uma causa importante de infarto especialmente entre mulheres mais jovens e de meia-idade.
Isso não significa que todo infarto em uma mulher jovem seja causado por essa condição. Significa que, diante de um evento cardíaco nessa população, os médicos precisam considerar que existem outros mecanismos além daqueles mais conhecidos pelo público.
E o fato de o infarto acontecer depois de uma gestação?
Aqui é preciso separar associação médica de conclusão sobre um caso individual.
A gestação e o período após o parto provocam grandes adaptações no organismo feminino. Volume de sangue, funcionamento cardiovascular e níveis hormonais passam por mudanças importantes.
A literatura médica reconhece que, embora o infarto associado à gestação seja incomum, o risco de infarto é maior durante a gravidez e o período pós-parto do que entre mulheres da mesma idade que não estão grávidas.
Entre os mecanismos envolvidos nesses episódios está justamente a SCAD. Uma revisão publicada no Journal of the American College of Cardiology descreve a dissecção coronariana como uma causa importante de infarto associado à gestação e mostra que, quando a SCAD está relacionada à gravidez, a maioria dos episódios estudados ocorreu depois do parto.
Outro estudo do registro da Mayo Clinic, com mulheres que tiveram SCAD durante a gestação ou nas primeiras 12 semanas após o parto, encontrou concentração dos casos principalmente no primeiro mês pós-parto.
Mas associação não é diagnóstico. O fato de uma mulher sofrer um infarto semanas depois de ter um bebê não permite concluir, sozinho, que a gestação provocou o evento nem que houve uma dissecção coronariana.
No caso de Giane Alves, as informações públicas disponíveis não apresentam exames, achados de angiografia, laudo detalhado ou outros dados clínicos capazes de estabelecer o mecanismo do infarto. Por isso, atribuir a morte da modelo à SCAD ou ao puerpério iria além do que as evidências disponíveis permitem afirmar.
Infarto e morte súbita não significam exatamente a mesma coisa
Outro cuidado importante é não usar infarto e parada cardíaca como se fossem sinônimos.
No infarto agudo do miocárdio, parte do músculo do coração deixa de receber sangue adequadamente. É, portanto, um problema de circulação.
Na parada cardíaca, o coração deixa subitamente de bombear sangue de maneira eficaz, geralmente devido a uma alteração grave de seu funcionamento elétrico. A pessoa pode perder a consciência, parar de respirar normalmente e morrer em poucos minutos sem atendimento.
As duas situações podem estar relacionadas. Um infarto pode desencadear uma arritmia grave e levar a uma parada cardíaca, mas nem todo infarto provoca parada cardíaca e nem toda parada cardíaca é causada por um infarto.
Essa diferença também explica por que a expressão popular “infarto fulminante” não esclarece, sozinha, exatamente o que aconteceu dentro do coração. Para compreender o mecanismo de uma morte súbita, são necessárias informações clínicas e diagnósticas específicas.
Os sinais que não devem ser ignorados
Independentemente da idade, alguns sintomas precisam ser levados a sério. Nas mulheres, o sintoma mais comum do infarto continua sendo dor ou desconforto no peito, mas outras manifestações também podem ocorrer.
Entre os sinais descritos por autoridades de saúde estão:
→ Dor, pressão, aperto ou desconforto no centro do peito;
→ Falta de ar, que pode ocorrer com ou sem dor no peito;
→ Dor ou desconforto nos braços, costas, pescoço, mandíbula ou região do estômago;
→ Suor frio;
→ Náusea ou vômito;
→ Tontura, fraqueza ou sensação de desmaio;
→ Cansaço incomum;
→ Palpitações, que podem acompanhar alterações do ritmo cardíaco e merecem avaliação quando surgem junto de outros sintomas preocupantes.
É importante não cair no extremo oposto e imaginar que qualquer náusea, palpitação ou cansaço significa infarto.
Esses sintomas são comuns a muitas condições. O que merece atenção especial é o aparecimento súbito, intenso ou inexplicável, principalmente quando vários sinais aparecem juntos ou há dor ou pressão no peito, falta de ar, suor frio ou desmaio.
Quando procurar ajuda?
Suspeita de infarto é uma emergência e não deve esperar os sintomas “passarem sozinhos”.
No Brasil, se deve acionar o SAMU pelo número 192 diante de sinais como dor no peito, suor frio, palidez e sensação de desmaio, ou procurar atendimento de emergência.
Se uma pessoa desmaia, fica inconsciente e não respira normalmente, a situação pode ser uma parada cardiorrespiratória e exige socorro imediato.
Para mulheres que estão grávidas ou passaram recentemente por um parto, sintomas cardiovasculares importantes também não devem ser automaticamente atribuídos ao cansaço, à ansiedade ou às mudanças naturais desse período.
A morte de uma mulher jovem por infarto causa estranhamento porque desafia uma imagem ainda muito presente no senso comum: a de que eventos cardíacos graves pertencem quase exclusivamente aos homens mais velhos ou às pessoas com vários fatores de risco.
A medicina mostra um cenário mais complexo. Conhecer essa possibilidade não é motivo para viver com medo. É uma razão para reconhecer os sinais e não descartar uma emergência apenas porque a pessoa parece “jovem demais” para ter um problema cardíaco.
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Fontes:
UOL. Giane Alves, modelo descoberta em posto de gasolina, tem morte súbita aos 32. Disponível aqui. Acesso em: 7 out. 2026.
American Heart Association. Coronary Artery Dissection: Not Just a Heart Attack. Disponível aqui. Acesso em: 7 out. 2026.
American Heart Association. Heart Attack Symptoms in Women. Disponível aqui. Acesso em: 7 out. 2026.
American Heart Association. Acute Coronary Syndromes in Premenopausal Women. Professional Heart Daily, 2026. Disponível aqui. Acesso em: 7 out. 2026.
HAYES et al. Spontaneous Coronary Artery Dissection: JACC State-of-the-Art Review. Journal of the American College of Cardiology, v. 76, n. 8, p. 961-984, 2020. DOI: 10.1016/j.jacc.2020.05.084.
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