Canetas emagrecedoras: nova promessa, alerta à visão e possível acesso pelo SUS
Novo medicamento experimental avança nos estudos enquanto Anvisa apura eventos oculares e governo calcula preços para possível oferta no SUS. Entenda as novidades.

As chamadas canetas emagrecedoras voltaram ao centro das atenções devido a alguns motivos diferentes.
Todos se encontram em torno de uma mesma questão: medicamentos para obesidade estão avançando rapidamente, mas eficácia, segurança, acesso e informação precisam acompanhar esse movimento.
E, para quem usa ou pensa em usar esses tratamentos, separar expectativa de evidência ficou ainda mais importante.
Retatrutida chama atenção, mas continua experimental
O nome que ganhou força nas pesquisas nesta semana é retatrutida. O interesse coincide com a divulgação detalhada de novos resultados do estudo de fase 3 TRIUMPH-2.
A retatrutida é diferente das canetas já conhecidas porque atua simultaneamente em três receptores hormonais: GIP, GLP-1 e glucagon.
De forma simplificada, são vias envolvidas no controle da glicose, da fome, da saciedade e do metabolismo energético. É por isso que o medicamento é chamado de “agonista triplo”, isto é, uma molécula desenvolvida para ativar três dessas vias ao mesmo tempo.
No TRIUMPH-2, 1.152 adultos com diabetes tipo 2 e obesidade ou sobrepeso participaram do estudo durante 80 semanas. Entre aqueles que receberam a dose mais alta de retatrutida, de 12 mg, a perda de peso chegou a cerca de 20% do peso corporal, em média.
Esse percentual variou um pouco conforme a forma usada pelos pesquisadores para analisar os resultados. Em uma das análises, a perda média foi de 20,8%. Em outra, que também levou em conta situações como a interrupção do tratamento durante o estudo, ficou em 18,8%. Para ter uma comparação, quem recebeu placebo perdeu, em média, 5,1% do peso.
Na prática, a mensagem principal é mais simples: a retatrutida levou a uma perda de peso expressiva no estudo, mas ainda é um medicamento experimental.
E há outro cuidado importante. O estudo comparou a retatrutida com placebo (uma substância sem o medicamento), e não diretamente com semaglutida ou tirzepatida. Por isso, esses resultados não permitem dizer que a retatrutida é melhor do que as canetas que já estão disponíveis.
Além disso, enquanto semaglutida e tirzepatida já têm medicamentos aprovados para determinadas indicações, a retatrutida continua em fase de pesquisa e não está aprovada para venda.
Se está em fase 3, por que não posso comprar?
Porque resultado positivo de estudo não equivale a autorização para comercialização.
A Anvisa é categórica: a retatrutida ainda não está aprovada para venda e produtos oferecidos com esse nome não devem ser utilizados.
A substância continua em pesquisa clínica e, até o momento, não recebeu autorização regulatória para comercialização.
Esse ponto merece atenção porque o interesse científico pelo medicamento já foi acompanhado por um mercado clandestino. A Anvisa encontrou retatrutida em operações de fiscalização, determinou apreensões e alertou para ofertas feitas pela internet e pelas redes sociais.
Em setembro, uma operação no Aeroporto do Galeão reteve 572 unidades declaradas como retatrutida, além de outros produtos irregulares.
Entenda que, o medicamento usado em um ensaio clínico tem composição, fabricação, armazenamento, dose e acompanhamento controlados. Um frasco ou uma caneta comprado clandestinamente com a palavra “retatrutida” no rótulo não oferece essas garantias.
Não é possível saber apenas pela embalagem se existe retatrutida ali, qual é a concentração, se houve contaminação ou se a substância foi armazenada corretamente. Por isso, resultados de estudos clínicos não podem ser usados como prova de eficácia ou segurança de produtos vendidos clandestinamente com o mesmo nome.
O alerta sobre visão envolve outros medicamentos
Enquanto a retatrutida chama atenção pelo potencial terapêutico, outra frente exige cuidado para não misturar os assuntos.
A Anvisa está analisando 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noiana) entre pessoas que utilizaram medicamentos para diabetes ou obesidade. Do total, 12 notificações envolvem medicamentos à base de semaglutida e uma envolve tirzepatida.
A Noiana acontece quando há comprometimento da circulação sanguínea que abastece parte do nervo óptico, estrutura responsável por transmitir ao cérebro as informações captadas pelos olhos.
Um dos sinais característicos é perda súbita da visão, geralmente sem dor, que pode afetar inicialmente um dos olhos.
Aqui existe uma distinção essencial: essas 13 notificações não comprovam que os medicamentos causaram os episódios.
Uma notificação de evento adverso funciona como um sinal que precisa ser investigado. Para avaliar uma possível relação, é necessário analisar diagnóstico, momento em que os sintomas surgiram, condições de saúde do paciente, outros medicamentos utilizados e possíveis causas alternativas.
Para a semaglutida, o Comitê de Avaliação de Risco em Farmacovigilância da Agência Europeia de Medicamentos concluiu que a Noiana deve ser classificada como efeito adverso muito raro, categoria que corresponde a até um caso a cada 10 mil pessoas tratadas.
A Anvisa também determinou a inclusão desse risco nas informações dos medicamentos com semaglutida.
Perda súbita da visão exige atendimento
O fato de um evento ser muito raro não significa que seus sintomas devam ser ignorados. A orientação da Anvisa para quem utiliza semaglutida é procurar atendimento médico imediatamente diante de perda repentina da visão, visão turva ou piora rápida da capacidade de enxergar.
Isso não significa suspender a caneta preventivamente por conta própria, uma vez que, um alerta de farmacovigilância existe justamente para que médico e paciente possam reconhecer um possível problema e tomar uma decisão baseada na situação clínica individual.
Interromper um tratamento prescrito sem orientação também pode trazer consequências, especialmente para pessoas que utilizam esses medicamentos no controle do diabetes.
Se a Noiana for diagnosticada em uma pessoa que usa semaglutida, a recomendação regulatória é interromper o medicamento.
E as canetas no SUS? O processo começou, não terminou
Enquanto novos medicamentos são pesquisados e novos sinais de segurança são monitorados, outra discussão acontece no Brasil: quanto custaria ampliar o acesso a tratamentos contra a obesidade pelo Sistema Único de Saúde?
O Ministério da Saúde protocolou na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) um pedido de avaliação de medicamentos dessa classe para pessoas com obesidade. O pedido menciona semaglutida ou liraglutida, e não significa que uma caneta específica já tenha sido escolhida para distribuição.
O governo estima um orçamento de aproximadamente R$ 1,5 bilhão por ano e afirma que compras em grande escala, negociação e produção nacional poderiam permitir redução de 80% a 90% no preço de aquisição.
Mas atenção à palavra: poderiam. Os percentuais de 80% a 90% são projeções do Ministério da Saúde, não preços finais já contratados pelo SUS.
A avaliação econômica ainda precisa considerar quanto o tratamento custa, quais benefícios produz, para quais pacientes faria sentido e qual seria o impacto dessa despesa no orçamento público.
É exatamente para isso que existe a Conitec. A comissão analisa evidências de eficácia, efetividade e segurança, além de aspectos econômicos e impacto orçamentário antes de formular uma recomendação sobre a incorporação de uma tecnologia ao SUS.
Portanto, neste momento, não há uma data definida para distribuição, nem um público final estabelecido para receber esses medicamentos. O protocolo clínico e os critérios de acesso dependerão do andamento da avaliação e das decisões posteriores.
O que quem usa ou procura essas canetas precisa saber?
Em meio a resultados expressivos, alertas de segurança e discussões sobre acesso, algumas orientações já são claras:
→ Não compre produtos anunciados como retatrutida. A substância continua experimental e não está autorizada para comercialização.
→ Não use semaglutida, tirzepatida ou outros medicamentos dessa classe sem prescrição e acompanhamento profissional.
→ Não interrompa um tratamento prescrito apenas por causa das notícias sobre notificações de eventos adversos. Converse com o profissional responsável pelo acompanhamento.
→ Procure atendimento médico imediatamente diante de perda súbita da visão, visão turva ou piora rápida da visão.
→ Lembre que aprovação pela Anvisa e incorporação ao SUS são processos diferentes. O fato de o Ministério ter solicitado uma avaliação não significa que a distribuição já tenha sido aprovada.
O momento atual mostra bem a velocidade das mudanças no tratamento da obesidade. Novas moléculas conseguem resultados que poucos anos atrás pareciam distantes, enquanto a farmacovigilância tenta identificar eventos raros e os sistemas públicos discutem como transformar inovação em acesso sustentável.
O avanço das canetas não pode ser medido apenas pelos quilos perdidos. Segurança, procedência, acompanhamento médico, custo e acesso também fazem parte da conta.
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Fontes:
Anvisa. Retatrutida ainda NÃO está aprovada para uso em nenhum lugar do mundo. Publicado em 24 jul. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 30 set. 2026.
Anvisa. Mais de 1.000 produtos irregulares apreendidos no Aeroporto do Galeão. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 30 set. 2026.
Anvisa. Alerta sobre evento adverso muito raro associado à semaglutida que pode levar à perda da visão. Publicado em 12 jun. 2025. Disponível aqui. Acesso em: 30 set. 2026.
European Medicines Agency (EMA). PRAC concludes eye condition NAION is a very rare side effect of semaglutide medicines Ozempic, Rybelsus and Wegovy. Publicado em 6 jun. 2025. Disponível aqui. Acesso em: 30 set. 2026.
Ministério da Saúde. Ministério da Saúde protocola na Conitec pedido de análise para incorporação de canetas emagrecedoras no SUS. Publicado em 24 set. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 30 set. 2026.
Ministério da Saúde. Canetas emagrecedoras podem chegar ao SUS com até 90% de desconto após ações do Ministério da Saúde e da Anvisa. Publicado em 28 set. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 30 set. 2026.
BAJAJ, et al. Efficacy and safety of retatrutide, a GIP, GLP-1, and glucagon receptor agonis, in people with type 2 diabetes and inadequate glycaemic control with diet and exercise (TRANSCEND-T2D-1): a double-blind, randomised, phase 3 trial. The Lancet, v. 407, n. 10546, p. 2402-2413, 2026. DOI: 10.1016/S0140-6736(26)00967-0.



