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Um em cada oito casos de câncer no mundo está ligado a infecções

Estudo estima 2,3 milhões de casos atribuídos a agentes infecciosos em 2024 e reforça o potencial da vacinação, diagnóstico e tratamento.

7 min de leituraPublicado em 05/10/2026Atualizado em 06/10/2026
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Um em cada oito casos de câncer no mundo está ligado a infecções

Uma bactéria que pode viver no estômago. Vírus tão comuns que muitas pessoas entram em contato com eles ao longo da vida. Quando pensamos em câncer, nem sempre as infecções aparecem entre as primeiras causas que vêm à cabeça.

No entando, um novo levantamento global mostra o tamanho dessa relação: cerca de um em cada oito novos casos de câncer diagnosticados no mundo em 2024 foi atribuído a agentes infecciosos.

A estimativa corresponde a 2,3 milhões de casos, ou 12% de todos os novos cânceres naquele ano.

O estudo, conduzido por pesquisadores da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), foi publicado no periódico científico The Lancet Oncology.

O dado chama atenção por outro motivo. Parte importante dessas infecções pode ser prevenida, diagnosticada, tratada ou controlada. Isso abre espaço para reduzir também uma parcela dos cânceres relacionados a elas.

Mas existe uma diferença essencial: ter uma dessas infecções não significa que a pessoa terá câncer. Na maioria das situações, o desenvolvimento de um tumor depende de uma combinação de fatores e pode levar anos.

Cinco infecções concentram grande parte dos casos

Os pesquisadores analisaram dados de incidência de câncer de 2024 do Global Cancer Observatory, banco internacional mantido pela IARC, e estimaram a parcela de novos casos atribuível a 12 agentes infecciosos classificados como carcinogênicos para humanos, ou seja, agentes para os quais existem evidências suficientes de que podem causar determinados tipos de câncer.

Entre eles, cinco responderam pelo maior número de casos:

→ Helicobacter pylori (H. pylori): cerca de 760 mil casos, equivalentes a 4% de todos os novos cânceres no mundo.

→ Papilomavírus humano (HPV): aproximadamente 750 mil casos, também cerca de 4%.

→ Vírus da hepatite B (HBV): aproximadamente 360 mil casos, ou 2%.

→ Vírus Epstein-Barr (EBV): cerca de 260 mil casos, ou 1%.

→ Vírus da hepatite C (HCV): aproximadamente 160 mil casos, menos de 1% do total mundial.

Só H. pylori e HPV, portanto, somaram aproximadamente 1,5 milhão de novos casos atribuíveis a infecções em 2024.

A relação não é igual para todos os agentes. A bactéria H. pylori, por exemplo, está fortemente associada ao câncer de estômago.

O HPV está relacionado principalmente ao câncer do colo do útero, mas também pode participar do desenvolvimento de tumores no ânus, pênis, vulva, vagina, boca e garganta.

Já as hepatites B e C podem causar infecções persistentes no fígado e aumentar o risco de câncer hepático.

O Epstein-Barr, por sua vez, está relacionado a alguns linfomas e outros tipos de câncer. A nova análise também incorporou evidências mais recentes sobre sua participação em parte dos casos de câncer de estômago.

Como uma infecção pode acabar participando de um câncer?

A primeira coisa a entender é que uma infecção e um câncer não costumam aparecer um logo depois do outro. O processo pode ser longo e depende do agente infeccioso, da persistência da infecção e de outros fatores do organismo e do ambiente.

Alguns vírus conseguem interferir diretamente no funcionamento das células. Outros favorecem alterações celulares ao permanecer no organismo por muito tempo.

Certas infecções também provocam inflamação crônica, isto é, um estado de inflamação que persiste durante anos e pode contribuir para danos e alterações nos tecidos.

Para visualizar melhor, pense que o câncer normalmente não nasce de um único acontecimento. As células acumulam alterações ao longo do tempo até que algumas delas passem a crescer de forma descontrolada.

Uma infecção carcinogênica pode participar desse caminho, mas isso não transforma automaticamente uma pessoa infectada em paciente com câncer.

O HPV ajuda a entender essa diferença. A infecção é extremamente comum e, segundo o Ministério da Saúde, na maioria das pessoas não apresenta sinais ou sintomas. Muitas infecções desaparecem espontaneamente pelo próprio organismo.

O problema está principalmente na persistência de determinados tipos de HPV de alto risco, que podem provocar alterações celulares e, ao longo do tempo, contribuir para o desenvolvimento de câncer.

O que significa dizer que 12% dos cânceres foram “atribuídos” a infecções?

Esse ponto é importante para não transformar um dado populacional em uma previsão individual.

Os pesquisadores calcularam a chamada fração atribuível populacional, uma medida epidemiológica usada para estimar quantos casos de uma doença, em uma população, podem ser atribuídos a determinado fator.

Na prática, o estudo não acompanhou 2,3 milhões de pessoas e concluiu individualmente que determinada bactéria ou vírus causou o tumor de cada uma delas.

Os cientistas combinaram estimativas globais de incidência de câncer com evidências epidemiológicas sobre a frequência das infecções e sua relação causal com determinados tumores.

Por isso, 12% não é o risco de uma pessoa infectada desenvolver câncer. É uma estimativa da proporção dos casos de câncer ocorridos mundialmente em 2024 atribuível aos agentes infecciosos analisados.

Os números também não se distribuem igualmente pelo planeta. O leste da Ásia concentrou cerca de 990 mil casos, correspondentes a 42% de todos os cânceres atribuídos a infecções no levantamento. As taxas também ficaram acima da média global na África Subsaariana, Europa Central e Oriental e Sudeste Asiático.

Essas diferenças refletem, entre outros fatores, a circulação dos agentes infecciosos e as desigualdades no acesso à vacinação, diagnóstico, rastreamento e tratamento.

A parte mais importante do achado está na prevenção

Se algumas infecções participam do desenvolvimento do câncer, preveni-las ou tratá-las pode interromper uma parte desse caminho. É justamente aí que o resultado do estudo ganha importância para a saúde pública.

Os próprios pesquisadores destacam estratégias já respaldadas por evidências científicas, como:

→ Vacinação contra o HPV;

→ Vacinação contra a hepatite B;

→ Diagnóstico e tratamento de H. pylori, hepatites B e C e HIV quando indicados;

→ Práticas seguras para evitar transmissão de infecções pelo sangue;

→ Prevenção da transmissão do HIV, incluindo preservativos e profilaxia pré-exposição (PrEP) para quem tem indicação;

→ Rastreamento de lesões precursoras relacionadas ao HPV, especialmente no colo do útero.

No Brasil, a vacina contra o HPV é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) aos públicos definidos pelo Ministério da Saúde. A vacinação é considerada a medida mais eficaz para prevenir a infecção pelos tipos de HPV contemplados pela vacina.

No caso da hepatite B, a vacinação também tem papel direto na prevenção de uma infecção capaz de aumentar o risco de câncer de fígado.

Já com H. pylori, a lógica é diferente. A bactéria pode provocar inflamação crônica no estômago e é reconhecida como uma das principais causas de câncer gástrico.

Estratégias de testagem e tratamento da infecção vêm sendo estudadas e adotadas de acordo com o risco e o contexto de cada população. Isso não significa, porém, que todas as pessoas devam procurar antibióticos ou fazer exames por conta própria. A indicação precisa considerar avaliação médica e recomendações de saúde aplicáveis a cada caso.

Infecção não é destino

Uma infecção associada ao câncer aumenta ou participa do risco em determinadas circunstâncias, mas não significa que toda pessoa infectada desenvolverá um tumor.

Esse cuidado é especialmente importante quando falamos de HPV, H. pylori e Epstein-Barr, agentes com os quais muitas pessoas podem ter contato durante a vida.

Ao mesmo tempo, não é pouca coisa descobrir que aproximadamente 2,3 milhões de diagnósticos de câncer em um único ano podem ser atribuídos a infecções conhecidas.

Para a saúde pública, significa que combater algumas infecções também é uma forma de prevenção do câncer.

O estudo não inaugura essa relação. HPV, hepatites e H. pylori, por exemplo, já são reconhecidos há anos como agentes envolvidos no desenvolvimento de determinados tumores. O que a nova análise oferece é uma fotografia global atualizada, incorporando 12 agentes infecciosos e novas evidências sobre as relações entre determinadas infecções e tipos de câncer.

E há uma mensagem prática escondida nesses números: algumas ferramentas para reduzir essa carga já existem. Vacinas, rastreamento, diagnóstico e tratamento de determinadas infecções podem impedir que uma cadeia iniciada muitos anos antes chegue ao câncer.

Prevenir uma infecção, em alguns casos, também significa prevenir um câncer que poderia aparecer anos depois.

💬 Você imaginava que vírus e bactérias poderiam estar envolvidos em uma parcela tão grande dos casos de câncer no mundo? Conte nos comentários.

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Fontes:

RUMGAY et al. Global burden of cancer attributable to infections in 2024: a worldwide incidence analysis. The Lancet Oncology, v. 27, n. 10, p. 1237-1248, 2026. DOI: 10.1016/S1470-2045(26)00307-4.

International Agency for Research on Cancer. Global burden of cancer attributable to infections in 2024: One in eight cancers worldwide linked to infections. Publicado em 29 set. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 5 out. 2026.

Instituto Nacional de Câncer. HPV e outras infecções. Informações sobre agentes infecciosos relacionados ao desenvolvimento de câncer. Disponível aqui. Acesso em: 5 out. 2026.

International Agency for Research on Cancer. IARC Working Group Report on Helicobacter pylori screen-and-treat strategies for gastric cancer prevention. Publicado em 12 mar. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 5 out. 2026.

Vanessa MirandaEditora Técnica e Enfermeira Mestre em SaúdeRevisado por: Diogo Strauch RibeiroMédico Clínico Geral — CRM 5293516-6
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