Alguém engasgou? Saiba o que mudou nas manobras que salvam vidas
A American Heart Association atualizou suas orientações; agora há um passo a passo claro e diferente para bebês, crianças e adultos conscientes.

A American Heart Association (AHA) atualizou suas diretrizes oficiais de primeiros socorros, reanimação cardiopulmonar (RCP) e emergências cardiovasculares.
As novas orientações, publicadas na revista científica Circulation, substituem as de 2020 e trazem mudanças importantes na forma de agir diante de um engasgo com obstrução das vias aéreas, tanto em bebês e crianças quanto em adultos conscientes.
A AHA é uma das entidades referências que orientam os protocolos seguidos mundialmente em cursos de primeiros socorros.
O que mudou com a atualização?
Antes, a conduta mais conhecida era aplicar diretamente os empurrões abdominais, popularmente chamados de “manobra de Heimlich”.
Agora, o protocolo de 2025 estabelece uma sequência de etapas mais segura e eficaz:
→ Primeiro estimular a tosse, depois realizar 5 pancadas nas costas e, se necessário, 5 empurrões (no abdômen ou no peito, conforme o caso).
→ Nos bebês, o método é diferente, nunca se usam empurrões abdominais, apenas pancadas nas costas e compressões torácicas alternadas. O objetivo é desobstruir sem causar lesões, respeitando o tamanho e a fragilidade de cada faixa etária.
As revisões foram motivadas por novas análises científicas sobre eficácia e segurança das manobras, e pela necessidade de um algoritmo que seja simples para leigos e aplicável em diferentes idades.
Estudos e revisões recentes, reunidos pelo comitê internacional de reanimação e avaliados pela AHA, mostraram que uma sequência escalonada de intervenções (estimular tosse, pancadas nas costas, empurrões adequados) melhora as chances de desobstrução sem aumentar risco de lesões quando aplicada corretamente.
Além disso, a diferenciação clara entre bebês e crianças maiores reduz o uso de técnicas potencialmente perigosas em lactentes.
Passo a passo para bebês (até 1 ano)
1 - Verifique rapidamente se o bebê está realmente com obstrução grave: ele não consegue tossir, dificuldade para respirar, ausência de som ao inspirar, não chora, muda de cor ou fica molinho.
2 - Se o bebê estiver consciente, coloque-o apoiado sobre o antebraço, com a cabeça mais baixa que o tronco.
3 - Aplique 5 pancadas firmes nas costas, entre as omoplatas, usando a palma da mão.
4 - Se não desobstruir, vire o bebê de barriga para cima, mantendo a cabeça apoiada, e faça 5 compressões torácicas com o calcanhar de uma mão, no centro do tórax (profundidade relativa ao tamanho do bebê).
5 - Alterne 5 pancadas nas costas e 5 compressões torácicas até o objeto sair ou até o bebê ficar inconsciente. Nunca faça empurrões abdominais em bebês; há risco elevado de lesão.

Observações: Não introduza os dedos na boca se o corpo estranho não estiver visível. Se o bebê desmaiar, inicie a reanimação - RCP (30 compressões no peito com os dois polegares + 2 ventilações).
Passo a passo para crianças maiores de 1 ano e adultos conscientes
1 - Pergunte, de forma rápida: “Você está engasgado? Consegue tossir ou falar?” Se a pessoa consegue tossir com força, incentive a tosse e observe.
2 - Se a pessoa não consegue tossir, falar ou respirar adequadamente, peça para que ela incline-se levemente para frente, se possível.
3 - Aplique 5 pancadas nas costas, entre as omoplatas.
4 - Se continuar bloqueada, aplique 5 empurrões abdominais na técnica adequada (manobra de Heimlich):
→ Feche um punho e posicione-o acima do umbigo e abaixo do osso do peito.
→ Segure o punho com a outra mão e comprima com força para dentro e para cima.
5 - Repita ciclos de 5 pancadas nas costas e 5 empurrões até a obstrução ser removida ou até a vítima ficar inconsciente. Se a vítima perder a consciência, iniciar RCP conforme o protocolo (compressões torácicas de 100 a 120 por minuto) e verificar visualmente a boca por corpo estranho.

Observações: Para gestantes ou pessoas muito obesas, use empurrões torácicos no lugar dos abdominais.
Quando procurar ajuda imediatamente
Procure socorro de emergência imediatamente se a vítima:
↪︎ Não recuperar a respiração e ficar inconsciente;
↪︎ Apresentar alteração do nível de consciência;
↪︎ Se a desobstrução não ocorrer rapidamente com as manobras.
Sempre acione o SAMU (192) o mais rápido possível! Alguém próximo deve acionar imediatamente o serviço de emergência, enquanto outra pessoa inicia as manobras.
Mesmo que a pessoa pareça recuperar a respiração, é recomendável avaliação médica quando houve engasgo por corpo estranho, porque podem existir lesões internas ou fragmentos que permaneçam nas vias aéreas.
Outros pontos das novas diretrizes que importam
• As diretrizes reforçam que, se a pessoa pode tossir com força e respirar, não se deve interromper a tosse para aplicar manobras invasivas.
• Em bebês, empurrões abdominais não são recomendados, por risco de lesão interna.
• Para gestantes e pessoas muito obesas, recomendam-se empurrões torácicos em vez de abdominais, por questões anatômicas.
• As diretrizes reforçam a importância de ensinar primeiros socorros de forma acessível, simples e contínua para a população.
Embora países como os Estados Unidos contem com desfibriladores automáticos e programas amplos de capacitação em escolas e locais públicos, essa ainda não é a realidade brasileira. Aqui, o preparo da população é limitado e isso pode custar vidas.
Aprender manobras básicas de desengasgo e RCP é algo que qualquer pessoa pode (e deve) fazer, especialmente quem cuida de crianças e bebês, como pais, avós e babás.
Uma simples capacitação pode ser a diferença entre salvar ou perder uma vida. Cursos rápidos, presenciais ou online, já são oferecidos por hospitais, secretarias de saúde e instituições reconhecidas e valem cada minuto investido.
Engasgos acontecem em segundos, e o desfecho depende da reação de quem está por perto. Saber o que fazer pode transformar um momento de pânico em um ato de salvação.
Com as novas diretrizes da AHA, o conhecimento certo está mais claro do que nunca, falta apenas que ele chegue às mãos de quem realmente pode fazer a diferença.



