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CAR-T humanizada: a aposta brasileira para levar o combate ao câncer ao SUS

Pesquisadores do INCA, da Fiocruz e da UnB criaram uma versão mais humana da terapia CAR-T, buscando baratear e ampliar o acesso pelo SUS.

6 min de leituraPublicado em 27/08/2026
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CAR-T humanizada: a aposta brasileira para levar o combate ao câncer ao SUS

Uma das terapias mais avançadas contra o câncer no mundo acaba de dar um passo importante rumo ao Sistema Único de Saúde.

Pesquisadores do Instituto Nacional de Câncer (INCA), da Fiocruz e da Universidade de Brasília (UnB) desenvolveram e testaram duas novas versões humanizadas da terapia CAR-T, com resultados publicados no periódico científico Frontiers in Immunology.

Isso significa uma peça a menos no quebra-cabeça que hoje impede milhares de brasileiros com câncer no sangue de acessar esse tratamento pelo SUS: o custo de produção.

O que é a CAR-T e por que ela é chamada de "medicamento vivo"

Se você nunca ouviu falar da CAR-T, pensa comigo na seguinte cena: em vez de um remédio pronto, o próprio corpo do paciente vira a fábrica do tratamento.

A equipe médica retira do sangue da pessoa suas células de defesa, os linfócitos T, e as manda para um laboratório. Lá, elas recebem uma espécie de "kit de reconhecimento" geneticamente programado para identificar e atacar as células cancerígenas.

Depois de multiplicadas, essas células voltam para o corpo do paciente prontas para a caçada.

É por isso que a CAR-T é chamada de terapia celular ou "medicamento vivo": ela não é uma substância química, mas células vivas reprogramadas para lutar contra o câncer.

No Brasil, ela já é aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em três versões comerciais, indicadas principalmente para leucemias, linfomas e mieloma múltiplo que não respondem mais aos tratamentos convencionais, como a quimioterapia.

O problema é o preço. No sistema privado, o tratamento completo com CAR-T pode custar entre R$ 2 milhões e R$ 2,7 milhões, valor que varia conforme o produto usado e os custos hospitalares envolvidos.

Esse número, sozinho, explica por que a terapia ainda não está disponível na rede pública.

Onde mora o problema (e por que ele tem nome de camundongo)

Uma parte importante desse custo vem de um detalhe técnico pouco visível ao público: a "parte" da célula CAR-T que reconhece o tumor, chamada de receptor, costuma ser derivada de um anticorpo de camundongo.

Funciona bem, mas encarece a produção e ainda pode gerar reações do sistema imune do paciente contra essa proteína "estrangeira".

Foi exatamente esse ponto que a equipe do INCA, da Fiocruz e da UnB decidiu atacar. Eles pegaram essa peça de origem animal e fizeram uma modificação molecular para deixá-la mais parecida com uma proteína humana, um processo chamado de humanização.

Na prática, é como trocar uma peça importada e cara por uma versão nacional, feita sob medida, que faz o mesmo trabalho.

Os resultados: eficácia parecida, mesmo com o alvo "camuflado"

Os pesquisadores batizaram as duas versões de H1 e H2, e testaram ambas contra o antígeno CD19, uma proteína que fica na superfície de certas células de defesa e que costuma ser o alvo em cânceres como leucemia linfoide e linfoma não Hodgkin.

Em testes de laboratório, as duas versões humanizadas mataram células cancerosas com eficiência semelhante à da CAR-T original, inclusive quando o CD19 estava presente em quantidade reduzida na superfície do tumor, uma condição que normalmente dificulta o reconhecimento pelas células CAR-T.

O teste decisivo veio dos experimentos com camundongos, onde a versão H1 controlou o câncer de forma duradoura e manteve os animais vivos por tempo comparável ao da terapia original.

Já a versão H2 mostrou uma ligação mais fraca ao alvo, que perdeu força mais rápido, e sinais de "esgotamento" nas células T, quando as células de defesa perdem a capacidade de continuar atacando o tumor.

Ou seja, mesmo reconhecendo o alvo com um pouco menos de força que a versão derivada de camundongo, as duas versões humanizadas continuaram capazes de se ligar especificamente às células tumorais e de ativar normalmente a maquinaria de defesa das células T.

É a prova de conceito que faltava para seguir adiante com essa tecnologia pensada, desde o início, para custar menos.

O tamanho do problema que a CAR-T tenta resolver

Para entender o alcance dessa notícia, vale olhar os números. Segundo a Estimativa 2026 do INCA, o Brasil deve registrar 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2026-2028.

Dentro desse total, são esperados 12.220 novos casos de leucemia e 12.560 de linfoma não Hodgkin por ano, exatamente os tipos de câncer para os quais a CAR-T já mostra maior potencial.

E o potencial é real. Segundo especialistas que acompanham a evolução da terapia desde os primeiros ensaios clínicos, em 2010, nos Estados Unidos, a taxa de sucesso na remissão dos tumores começou entre 30% e 40% dos pacientes e hoje ultrapassa 80% em muitos protocolos.

Ou seja, hoje, 8 em cada 10 pacientes com leucemia ou linfoma em estágio avançado que se submetem à CAR-T não apenas sobrevivem, como apresentam remissão completa, o desaparecimento dos sinais da doença.

São pessoas que, na maioria das vezes, já tinham esgotado outras alternativas de tratamento.

O Brasil não está começando do zero

Vale destacar: essa pesquisa não é um esforço isolado. Desde 2020, existe um consórcio entre a UnB, a Fiocruz Ceará e o Centro Pasteur-Fiocruz dedicado a desenvolver novas versões de CAR.

Inclusive, essas novas versões visam explorar anticorpos produzidos por lhamas, animais que geram um tipo de anticorpo menor e mais simples, com vantagens para a fabricação em larga escala.

Outras frentes buscam substituir o vetor viral (usado para "instalar" a informação genética na célula) por um sistema não viral, o que reduziria o tempo de preparo das células de mais de um mês para cerca de oito dias.

Paralelamente, o INCA fechou parcerias com instituições internacionais de referência, como o Children's Hospital of Philadelphia (CHOP), nos Estados Unidos, para transferência de tecnologia voltada ao tratamento de câncer pediátrico, com previsão de tratar pacientes já a partir da meta de iniciar protocolos-piloto entre o fim de 2026 e o início de 2027.

É um esforço conjunto, com vários grupos trabalhando em pontos diferentes do mesmo problema: fazer a ciência caber no orçamento do SUS.

Ainda não existe uma "fila de espera" pública para essa CAR-T nacional, já que ela está em fase pré-clínica, mas o que essa pesquisa brasileira nos mostra é que ciência de ponta e Sistema Único de Saúde não precisam ser mundos separados.

Cada peça humanizada, cada vetor trocado, cada parceria internacional é um tijolo a mais na construção de um caminho: o de transformar um tratamento hoje restrito a quem pode pagar milhões em uma possibilidade real para quem depende do SUS.

💬 Se um tratamento assim existisse gratuito pelo SUS amanhã, você acha que o sistema de saúde brasileiro estaria pronto para oferecê-lo a todos que precisam? Isso gera outro detabe! Conta pra gente nos comentários o que você pensa sobre isso.

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Fonte:

BONAMINO, Martín Hernán. Terapia CAR-T humanizada no SUS poderá democratizar tratamento do câncer no Brasil. The Conversation Brasil, 2026. Disponível aqui. Acesso em: 27 ago. 2026.

INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). INCA estima 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Ministério da Saúde, 2026. Disponível aqui. Acesso em: 27 ago. 2026.

INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil. Ministério da Saúde, 2026.

INSTITUTO BUTANTAN. A história da terapia CAR-T: 60 anos de evolução e pioneirismo em direção à cura do câncer. Disponível aqui. Acesso em: 27 ago. 2026.

Vanessa MirandaEditora Técnica e Enfermeira Mestre em SaúdeRevisado por: Diogo Strauch RibeiroMédico Clínico Geral — CRM 5293516-6
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