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Rara no Brasil, comum no mundo: o alerta da Febre do Nilo Ocidental

Casos confirmados em Santa Catarina e São Paulo, com uma morte em investigação, reacendem o alerta sobre a rara doença no Brasil.

6 min de leituraPublicado em 26/08/2026
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Rara no Brasil, comum no mundo: o alerta da Febre do Nilo Ocidental

O Brasil confirmou, recentemente, quatro casos de Febre do Nilo Ocidental: dois em Santa Catarina e dois em São Paulo, além de um caso provável sendo investigado no Piauí.

Uma das pacientes catarinenses, uma idosa de 77 anos, morreu, e a equipe de saúde ainda apura se a infecção foi a causa da morte.

A doença é rara por aqui, mas está longe de ser desconhecida no resto do mundo. Neste mesmo ano, ela voltou a preocupar autoridades sanitárias na Europa e nos Estados Unidos.

Um vírus antigo, transmitido pelo pernilongo comum

Sabe aquele pernilongo que zune no ouvido à noite? Pois é justamente ele, do gênero Culex, é o principal responsável por espalhar o vírus.

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Foto: Genilton J. Vieira / Fiocruz

Não é o Aedes aegypti da dengue e da zika, estamos falando aqui daquele mosquito comum, também chamado de muriçoca.

O Vírus do Nilo Ocidental foi identificado pela primeira vez em 1937, em um distrito chamado West Nile, em Uganda, e é da mesma família dos flavivírus, o grupo de vírus que também inclui dengue, zika, chikungunya e febre amarela. Hoje ele circula em praticamente todos os continentes.

Para que a gente entenda o ciclo de transmissão do vírus, imagine a seguinte cena: um pernilongo pica uma ave silvestre infectada, geralmente uma ave migratória, e carrega o vírus com ele.

Esse mesmo mosquito pode depois picar uma pessoa ou um cavalo, e é aí que a infecção acontece.

O ciclo natural da doença é ave-mosquito-ave: o ser humano entra nessa história como um hospedeiro acidental, ou seja, um "passageiro" que pega carona no ciclo sem fazer parte dele.

É por isso que a transmissão de pessoa para pessoa por abraço, beijo, tosse ou espirro simplesmente não acontece.

Os poucos casos de contágio entre humanos, muito raros, estão ligados a transfusão de sangue, transplante de órgãos ou transmissão da mãe para o bebê durante a gravidez.

No Brasil, o primeiro caso humano foi registrado em 2014, no Piauí. Antes disso, em 2009, o vírus já havia sido detectado em cavalos e galinhas no Pantanal.

Segundo o Ministério da Saúde, a circulação por aqui nunca foi de transmissão sustentada entre pessoas, apenas casos eventuais ligados ao ciclo silvestre entre aves e mosquitos.

Quatro casos, uma morte e um alerta reforçado

Os dois primeiros pacientes de Santa Catarina apresentaram manifestações neurológicas. A mulher de 77 anos, moradora de Imbituba, não resistiu. Já o outro, um homem de 56 anos de Caçador, foi internado e recebeu alta.

Em São Paulo, os casos são os primeiros já registrados no estado: uma mulher de 34 anos, de Ribeirão Preto, que havia viajado recentemente para a região amazônica e já está recuperada, e uma adolescente de 18 anos, de São José do Rio Preto, que segue internada sob cuidados médicos.

A origem exata do contágio em cada caso ainda está sob investigação. O Ministério da Saúde, junto com as secretarias estaduais, reforçou a vigilância epidemiológica e prepara uma nota técnica com orientações atualizadas para o país.

Vigilância epidemiológica é o monitoramento constante feito pelas autoridades para identificar doenças e mapear áreas de risco.

Por que uma doença rara ainda preocupa?

Estima-se que cerca de 80% das pessoas infectadas não desenvolvam sintoma nenhum. Mas então, se a maioria das infecções nem chega a dar sintoma, por que os casos recentes viraram notícia?

A resposta está justamente na exceção. Dos 20% restantes, a maioria terá um quadro leve, parecido com uma dengue mais branda.

Mas uma fração pequena, algo entre 1 e menos de 1% do total de infectados segundo o Ministério da Saúde, pode desenvolver a chamada doença neuroinvasiva, quando o vírus consegue atravessar a barreira e atingir o sistema nervoso.

Assim, o paciente pode apresentar quadros de encefalite (inflamação do cérebro), meningite (inflamação das membranas que envolvem o cérebro e a medula) ou até paralisia flácida aguda, uma perda súbita de força muscular que pode lembrar a poliomielite.

É justamente nesse grupo pequeno que mora o risco mais sério: entre quem desenvolve a forma neurológica, a taxa de óbito pode chegar a 10%, segundo infectologistas ouvidos pela imprensa.

Idade avançada, imunossupressão, câncer em tratamento e transplante de órgãos aumentam esse risco, o que explica por que o caso mais grave registrado no Brasil neste ano foi o de uma paciente de 77 anos.

A dificuldade extra é que, no início, a Febre do Nilo Ocidental se disfarça. Os primeiros sintomas, com febre, dor de cabeça, dor muscular e náusea são praticamente iguais aos de outras doenças transmitidas por mosquitos, o que pode atrasar o diagnóstico correto.

Some a isso o fato de os testes sorológicos poderem dar reação cruzada entre esses vírus, e dá para entender por que a doença ainda é pouco reconhecida por aqui.

O panorama lá fora: uma doença sazonal e global

Enquanto o Brasil discute quatro casos, a Europa já soma mais de 600 infecções humanas confirmadas em 2026, com maior concentração na Itália, na Grécia e na Espanha, e os Estados Unidos ultrapassam 180 casos espalhados por mais de 30 estados.

Nos dois continentes, o padrão se repete: pico de casos no verão, quando o mosquito Culex está mais ativo, e nenhuma vacina aprovada para humanos.

Assim, a lógica por trás da preocupação não é que a doença vá virar uma epidemia daqui a pouco, mas sim que aves migratórias seguem cruzando continentes e carregando o vírus.

Além disso, o histórico de outras arboviroses, como a própria dengue, mostra que o Brasil tem clima e mosquito de sobra para hospedar novas doenças transmitidas por picada.

Cinco atitudes práticas contra o pernilongo e a Febre do Nilo Ocidental:

Use repelente, principalmente ao entardecer e ao amanhecer, quando o mosquito Culex costuma picar mais.

→ Instale telas em portas e janelas de casa.

Elimine água parada em vasos, pneus, calhas e qualquer recipiente que possa virar criadouro.

→ Não descarte lixo em valas, valetas ou margens de córregos e rios.

→ Evite tocar ou manusear aves ou outros animais encontrados mortos, e avise a vigilância sanitária local se encontrar algum.

Não existe vacina nem remédio antiviral específico contra o Vírus do Nilo Ocidental; o tratamento é de suporte, com hidratação e controle dos sintomas nos casos leves, e internação em unidade de terapia intensiva nos casos graves.

Nesse cenário, a prevenção e o diagnóstico rápido, quando os sintomas aparecem, são as ferramentas mais importantes que existem hoje contra essa doença.

A boa notícia é que o Brasil já tem décadas de experiência lidando com arboviroses transmitidas por mosquito. As mesmas medidas que ajudam a controlar a dengue funcionam contra o Culex. Ficar de olho no próprio quintal pode, literalmente, salvar uma vida.

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Fontes:

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Febre do Nilo Ocidental. Portal Gov.br, [s.d.]. Disponível aqui. Acesso em: 26 ago. 2026.

CNN BRASIL. Febre do Nilo Ocidental é rara no Brasil, apesar da disseminação global. CNN Brasil, 26 ago. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 26 ago. 2026.

Vanessa MirandaEditora Técnica e Enfermeira Mestre em SaúdeRevisado por: Diogo Strauch RibeiroMédico Clínico Geral — CRM 5293516-6
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