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Apostas online já são caso de saúde pública no Brasil, alerta governo

Atendimentos no SUS por vício em apostas cresceram quase 140% em cinco anos, segundo o Ministério da Saúde.

7 min de leituraPublicado em 07/08/2026
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Apostas online já são caso de saúde pública no Brasil, alerta governo

O Brasil tem hoje mais de 25 milhões de pessoas que apostam em plataformas online, quase 18% da população adulta, segundo o Ministério da Fazenda.

Junto com esse crescimento, veio um efeito colateral silencioso: nos últimos cinco anos, a procura por atendimento de saúde mental no SUS relacionada à dependência de jogos de azar aumentou quase 140%.

Diante disso, o Ministério da Saúde lançou em 2026 uma campanha nacional e uma rede de cuidado específica para apostadores, tratando o tema, oficialmente, como uma questão de saúde pública.

As bets entraram na rotina (e no bolso) do brasileiro

Sabe aquele anúncio de apostas que aparece no intervalo do jogo, no feed das redes sociais ou até estampado na camisa do time do coração? Pois ele é reflexo de um mercado que se instalou rápido demais no Brasil.

As casas de apostas, popularmente chamadas de "bets", funcionam 24 horas por dia, em qualquer celular, e usam notificações, bônus e apostas em tempo real para manter o usuário jogando por mais tempo do que ele planejava.

O impacto financeiro já é mensurável. De acordo com o Ministério da Fazenda, os apostadores brasileiros perderam cerca de R$ 38 bilhões em 2025, e o volume total movimentado nas plataformas seria quase dez vezes maior que esse valor.

Metade dos apostadores gastou até R$ 50 em algum mês do ano passado, mas 20% chegaram a apostar cerca de R$ 1.000 no período, um sinal de que o hábito, para uma parte relevante do público, já pesa no orçamento.

Quando o jogo deixa de ser lazer e vira transtorno

Apostar de vez em quando, com um limite definido, é diferente de apostar porque não se consegue parar. Essa segunda situação tem nome e é reconhecida oficialmente como doença.

O Transtorno do Jogo é classificado tanto pela Classificação Internacional de Doenças (CID) quanto pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) como um transtorno de comportamento aditivo, ou seja, uma dependência que não envolve substância química, mas que ativa no cérebro circuitos parecidos com os do vício em álcool ou drogas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a condição afeta cerca de 1,2% da população adulta mundial.

No Brasil, o retrato mais recente e mais completo vem do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), feito com mais de 16 mil brasileiros e divulgada em 2025.

Os números confirmam, com mais precisão, o que os dados da Fazenda citados no início desta reportagem já sugeriam: 28 milhões de brasileiros apostaram nos últimos 12 meses, 17,6% da população com 14 anos ou mais, uma proporção bem próxima dos 18% estimados pela Fazenda para 2025.

A diferença é que o LENAD III vai além do volume de apostadores e mede também o impacto na saúde, onde 10,9 milhões de pessoas (7,3%) já apresentam comportamento de risco ou problemático, e 1,4 milhão já preenche critérios clínicos para o Transtorno do Jogo.

Entre adolescentes que apostam, o risco é ainda maior: 55,2% já estão em algum grau de comportamento problemático.

O ciclo que prende o apostador

Imagine a seguinte cena: a pessoa aposta, ganha um valor pequeno logo no início, e esse ganho vira o gatilho que a faz continuar jogando.

Quando as perdas chegam (e estatisticamente, em apostas, elas chegam) entra em ação um mecanismo comum a esse tipo de transtorno: a tentativa de recuperar o dinheiro perdido apostando ainda mais.

É esse ciclo de esperança, perda e nova tentativa que, na prática, sustenta o vício e vai, aos poucos, drenando tempo, dinheiro e estabilidade emocional da pessoa e de quem está ao redor dela.

Os efeitos não ficam restritos à carteira. O uso problemático das plataformas de apostas está associado a impactos na saúde mental, como a ansiedade, quadros depressivos, insônia, entre outros.

Além disso, os impactos podem aparecer na rotina, nas relações familiares e sociais e, em casos mais graves, no aumento do risco de comportamento suicida, segundo revisões científicas sobre o tema.

Justamente por isso, mais de 500 mil pessoas já solicitaram a exclusão voluntária e por tempo indeterminado dos cadastros de plataformas de apostas no país, segundo o Ministério da Fazenda, um número que dá a dimensão de quantas pessoas já perceberam que perderam o controle.

E o que está sendo feito a respeito?

Vamos analisar juntos o que já saiu do papel. Em dezembro de 2025, os Ministérios da Saúde e da Fazenda criaram o Observatório Saúde Brasil de Apostas Eletrônicas, um canal permanente para cruzar dados entre as duas pastas e direcionar apostadores em risco para o SUS.

Na sequência, veio a Linha de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, primeiro documento nacional com orientações clínicas específicas para esse público, e, em janeiro de 2026, o Guia de Cuidado, voltado a orientar o acolhimento e o tratamento dentro da rede pública.

Desde fevereiro de 2026, o SUS conta ainda com teleatendimento em saúde mental focado em jogos e apostas, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês (Proadi-SUS), começando com 450 atendimentos online por mês.

Esse cuidado, na prática, é acessado pelo Meu SUS Digital, um aplicativo passou a concentrar o atendimento online voltado a pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas, funcionando como porta de entrada digital para esse cuidado dentro do SUS.

E em julho de 2026, já em meio à volta do Brasileirão e de grandes eventos esportivos, momentos de pico na exposição a anúncios de apostas, o Ministério da Saúde colocou no ar a Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online, veiculada em TV, rádio e redes sociais.

Um debate que ainda está em aberto

Vale dizer: nem tudo está resolvido. Há hoje, tramitando no Congresso, o Projeto de Lei 1.808/26, que propõe a proibição das apostas online no Brasil, e o tema já foi discutido em audiência pública na Câmara dos Deputados.

Não há consenso sobre o melhor caminho, se é proibição ou mais regulação, e esse é um debate que ainda vai render capítulos.

O que já está estabelecido, e é isso que esta notícia quer deixar claro, é que o impacto das apostas online na saúde da população deixou de ser uma hipótese e passou a ser um problema de saúde pública.

No fim das contas, apostar não é, em si, um problema moral, é um comportamento de risco que, para uma parte das pessoas, evolui para uma doença com nome, critério diagnóstico e tratamento disponível.

O Brasil está, agora, dando os primeiros passos institucionais para lidar com isso, mas a rede de proteção mais eficaz continua sendo a mais próxima: a que existe dentro de casa, entre amigos e nos primeiros sinais de alerta.

Antes de ser sobre dinheiro, essa é sempre uma conversa sobre saúde. Então, como se proteger (ou proteger alguém próximo) das apostas online:

Estabeleça um limite antes de jogar, e não durante - Decidir o valor máximo com a cabeça fria, antes de abrir o aplicativo, evita que a emoção do momento tome a decisão.

Use as ferramentas de autoexclusão - As plataformas autorizadas são obrigadas a oferecer bloqueio voluntário de acesso, e o governo lançou um canal específico para isso.

Desconfie de "recuperar o prejuízo" - Se a lógica virou apostar mais para reaver o que já foi perdido, esse é justamente o sinal de que o ciclo do vício está em ação.

Fale sobre o assunto sem julgamento - Se alguém da família está gastando mais do que devia, uma conversa aberta, sem acusação, costuma abrir mais portas do que uma cobrança.

Busque o CAPS ou o Meu SUS Digital - O SUS já oferece atendimento presencial e por telemedicina, de graça, para quem tem problemas relacionados a jogos de apostas.

💬 E você, já reparou algum sinal de que as apostas online passaram de lazer para preocupação, em você ou em alguém próximo? Conte pra gente nos comentários, sua experiência pode ajudar outra pessoa a se enxergar nessa história.

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Vanessa MirandaEditora Técnica e Enfermeira Mestre em SaúdeRevisado por: Diogo Strauch RibeiroMédico Clínico Geral — CRM 5293516-6
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