Consumo de álcool e outras drogas cresce mais rápido entre mulheres
Mortes por álcool subiram 20% e internações 41% em 10 anos no Brasil. Especialistas alertam para maior vulnerabilidade biológica feminina.

O consumo de álcool e outras drogas entre mulheres brasileiras está aumentando e chamando a atenção de pesquisadores e profissionais de saúde.
Embora os homens ainda liderem as estatísticas, especialistas observam que o crescimento entre mulheres tem sido mais rápido, o que reduz a diferença histórica entre os sexos.
A preocupação é que o impacto dessas substâncias no organismo feminino pode ser mais intenso e afetar diferentes áreas da vida, da saúde física ao bem-estar mental.
Uma mudança silenciosa no padrão de consumo
Durante décadas, o consumo de álcool e drogas foi muito mais associado aos homens. Esse cenário ainda existe, mas a diferença entre os sexos está diminuindo rapidamente.
Segundo levantamentos nacionais sobre álcool e drogas, o consumo abusivo de álcool entre mulheres no Brasil passou de 9,2% para 15,7% em menos de duas décadas.
Consumo abusivo significa ingerir grande quantidade de bebida em pouco tempo, geralmente quatro ou mais doses em uma única ocasião para mulheres.
Na prática, isso é como dar uma “sobrecarga” repentina no organismo, semelhante a ligar vários aparelhos elétricos ao mesmo tempo em uma tomada.
E o reflexo aparece nos serviços de saúde. Dados reunidos pelo CISA indicam:
→ Aumento de 20% nas mortes associadas ao álcool entre mulheres nos últimos 10 anos;
→ Crescimento de 41% nas internações hospitalares relacionadas ao álcool;
Especialistas explicam que o fenômeno acompanha mudanças sociais. Mulheres estão mais presentes em ambientes de trabalho e lazer onde o consumo é comum.
Ao mesmo tempo, campanhas publicitárias passaram a mirar mais diretamente esse público. Mas não é só uma questão cultural.
O corpo feminino reage de forma diferente ao álcool
Aqui entra um ponto importante da ciência: mulheres metabolizam o álcool de maneira diferente dos homens.
Metabolizar significa processar a substância no organismo para que ela seja eliminada.
O corpo feminino geralmente tem:
→ Menos água corporal;
→ Menor quantidade de enzimas que quebram o álcool;
→ Maior proporção de gordura.
O resultado disso é que a mesma quantidade de bebida (homem/mulher) pode gerar maior concentração de álcool no sangue.
Por isso, mulheres podem desenvolver problemas de saúde com menos tempo de consumo e com doses menores.
Drogas ilícitas também cresceram entre mulheres
O aumento não se limita ao álcool. O III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD), conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), aponta que o uso de drogas ilícitas também cresceu entre mulheres brasileiras na última década.
Alguns dados chamam atenção:
→ O uso de drogas ilícitas entre mulheres triplicou em pouco mais de 10 anos, passando de cerca de 3% para mais de 10%.
→ Maconha (cannabis) continua sendo a droga ilícita mais utilizada;
→ Houve aumento também no uso de drogas sintéticas, como ecstasy e LSD
Ainda assim, os homens seguem liderando em números absolutos. O ponto central é outro: a velocidade de crescimento entre mulheres é maior, o que preocupa pesquisadores.
Entre adolescentes, alguns estudos já mostram diferenças menores ou até inversões em certos contextos, com meninas relatando experimentação semelhante ou maior que a de meninos.
Impactos na saúde feminina ao longo da vida
Os efeitos do álcool e das drogas podem atingir várias fases da vida da mulher. E muitas vezes de forma específica.
Gravidez
O consumo de álcool durante a gestação pode causar a síndrome alcoólica fetal, uma condição que pode afetar o desenvolvimento do bebê.
A síndrome alcoólica fetal provoca problemas físicos, cognitivos e comportamentais permanentes.
Saúde mental
Mulheres que consomem álcool em excesso apresentam maior risco de:
• Depressão;
• Ansiedade;
• Transtornos relacionados ao uso de substâncias.
É como um ciclo que se alimenta. O álcool pode parecer aliviar o estresse no curto prazo, mas depois agrava sintomas emocionais.
Doenças do fígado
Outro problema importante é a doença hepática alcoólica, quando o álcool causa inflamação e danos ao fígado.
O fígado funciona como uma espécie de filtro do corpo. Quando recebe álcool repetidamente, ele precisa trabalhar muito mais. Com o tempo, pode sofrer cicatrizes e perder função.
Mulheres desenvolvem danos hepáticos mais rapidamente que homens, mesmo consumindo menos.
Câncer
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que não existe nível seguro de consumo de álcool em relação ao câncer.
Assim, entre os tipos associados ao álcool estão:
• Câncer de mama;
• Câncer de fígado;
• Câncer de esôfago;
• Câncer colorretal.
Medicamentos e outras substâncias entram no radar
Outro ponto que começa a chamar atenção dos pesquisadores é o uso de medicamentos psicoativos, que são remédios que atuam diretamente no cérebro.
Entre eles estão principalmente os ansiolíticos (remédios usados para ansiedade) e os sedativos ou hipnóticos (medicamentos para induzir o sono).
Dados do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas indicam que as mulheres relatam mais uso dessas substâncias do que os homens.
Esse padrão costuma estar ligado a fatores como maior diagnóstico de ansiedade e depressão, maior procura por atendimento de saúde e também a pressões sociais e emocionais do cotidiano.
Pensa comigo. Em muitos casos, as mulheres acumulam diferentes papéis ao mesmo tempo, seja no trabalho, cuidados com a família, entre outros, que podem gerar um nível constante de estresse. Nesse cenário, alguns medicamentos acabam sendo usados como uma forma de aliviar sintomas como insônia, tensão ou ansiedade.
Isso não significa que esses remédios sejam necessariamente um problema. Quando prescritos e acompanhados por profissionais de saúde, eles podem ser importantes no tratamento de vários transtornos.
O alerta dos especialistas aparece quando ocorre uso prolongado sem acompanhamento ou aumento da dose por conta própria, porque essas substâncias também atuam no sistema nervoso central e podem causar dependência.
O aumento do consumo de álcool, drogas e até alguns medicamentos entre mulheres acende um alerta importante para a saúde pública.
Especialistas reforçam que reconhecer esse movimento cedo é essencial para prevenir problemas mais graves no futuro. A boa notícia é que informação e apoio adequado podem fazer muita diferença.
Algumas atitudes simples podem ajudar no dia a dia:
→ Prestar atenção à frequência e à quantidade de álcool consumida;
→ Evitar usar bebida ou outras substâncias como forma de lidar com estresse ou emoções difíceis;
→ Buscar acompanhamento médico antes de iniciar ou prolongar o uso de medicamentos que atuam no cérebro;
→ Conversar com profissionais de saúde caso perceba mudanças no padrão de consumo;
→ Procurar apoio psicológico quando o estresse ou a ansiedade começam a pesar demais.
No fim das contas, o corpo costuma dar sinais quando algo não vai bem. Escutar esses sinais cedo pode evitar problemas maiores lá na frente.
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