Cresce o uso de testosterona por mulheres e entidades médicas alertam risco à saúde
Entidades médicas esclarecem que hormônio só é recomendado em um caso específico e podem ocorrer efeitos adversos sérios quando usado sem indicação clínica.

Nos últimos meses, a demanda por tratamentos com testosterona entre mulheres tem crescido, impulsionada por promessas de aumento de libido, mais energia, melhora de desempenho físico e efeitos associados ao “rejuvenescimento”.
Essa tendência também tem sido fomentada nas redes sociais e em alguns consultórios que prescrevem o hormônio fora das orientações médicas tradicionais, sem comprovação científica sólida.
Em resposta a esse cenário, três importantes organizações médicas brasileiras, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) emitiram uma nota conjunta esclarecendo os riscos do uso de testosterona por mulheres e as situações em que a indicação é clinicamente válida.
Quando a testosterona é indicada para mulheres?
De acordo com as entidades médicas, a única indicação reconhecida cientificamente para prescrição de testosterona em mulheres é o tratamento do Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH).
Esse transtorno refere-se à redução acentuada ou ausência persistente de desejo sexual por pelo menos seis meses, que causa sofrimento à pessoa afetada.
Antes de qualquer terapia hormonal, os especialistas recomendam investigar e tratar outras causas potenciais da diminuição da libido, como:
↪︎ Alterações hormonais como hipoestrogenismo (baixo estrogênio);
↪︎ Sintomas geniturinários da menopausa;
↪︎ Depressão e outros transtornos psiquiátricos;
↪︎ Efeitos colaterais de medicamentos;
↪︎ Obesidade e fatores psicossociais ou de relacionamento.
A nota também destaca que não existe um valor de testosterona “normal” universal para mulheres que permita concluir de forma simples que uma reposição hormonal é necessária.
Riscos do uso inadequado
Quando prescrita fora da indicação formal e sem acompanhamento clínico adequado, a testosterona pode trazer sérios efeitos adversos. Entre os mais comuns e preocupantes estão:
↪︎ Alterações na pele e no sistema capilar, como acne e queda de cabelo;
↪︎ Crescimento de pelos em padrões considerados masculinos;
↪︎ Aumento do clitóris e engrossamento irreversível da voz, mudanças que podem ser permanentes;
↪︎ Efeitos no fígado, incluindo toxicidade e risco potencial de tumores;
↪︎ Alterações de humor ou condições psicológicas;
↪︎ Infertilidade;
↪︎ Riscos cardiovasculares, como hipertensão (pressão alta), arritmias, tromboses, embolias, infarto e acidente vascular cerebral (AVC);
↪︎ Alterações desfavoráveis nos exames de colesterol e triglicerídeos, que podem afetar o coração a longo prazo.
Regulamentação e tendências
Entidades médicas e reguladoras reforçam que o uso de testosterona para fins estéticos, para melhorar composição corporal, desempenho físico, disposição ou “antienvelhecimento” não tem respaldo científico nem autorização legal no Brasil.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) veda esse tipo de utilização, e a Anvisa também não reconhece nenhuma formulação de testosterona para uso estético ou não terapêutico em mulheres.
Especialistas apontam que o corpo feminino naturalmente produz testosterona, mas em níveis muito menores do que o masculino, e que a queda do hormônio ao longo da vida é um processo gradual, não uma “deficiência” que exige reposição automática.
Como abordar a saúde hormonal feminina?
O ideal, segundo endocrinologistas e ginecologistas, é que qualquer avaliação hormonal seja realizada por um médico especialista, com base em história clínica detalhada, exames apropriados e diagnóstico claro.
O tratamento nunca deve ser iniciado apenas por dosagens isoladas de hormônio ou por objetivos estéticos.
Mulheres com queixas relacionadas à libido, energia ou bem-estar devem conversar com um profissional de saúde para avaliação completa e análise de causas subjacentes, que vão muito além dos níveis de testosterona no sangue.
Antes de iniciar qualquer tratamento hormonal, é fundamental buscar avaliação profissional qualificada, compreender as possíveis causas dos sintomas e priorizar terapias seguras, comprovadas e alinhadas às recomendações oficiais.



