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Da planta ao medicamento: por que o Brasil ainda aproveita pouco sua biodiversidade?

Entre receitas de família e promessas nas redes, plantas medicinais revelam o potencial brasileiro e os cuidados para transformar tradição em tratamento.

8 min de leituraPublicado em 28/10/2026
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Da planta ao medicamento: por que o Brasil ainda aproveita pouco sua biodiversidade?

O chá preparado em casa, a planta cultivada no quintal e a receita ensinada por alguém da família fazem parte da relação dos brasileiros com as plantas medicinais.

Hoje, esse conhecimento também circula em vídeos e publicações que prometem benefícios para os mais diferentes problemas de saúde.

Mas conhecer uma planta pelo uso cotidiano e transformá-la em um medicamento seguro são caminhos que exigem cuidados diferentes.

É nesse encontro entre tradição, ciência e consumo que aparece uma pergunta: se o Brasil tem tanta biodiversidade e conhecimento sobre plantas medicinais, por que esse potencial nem sempre se transforma em medicamentos desenvolvidos aqui?

Existem dificuldades para conectar pesquisa, financiamento e produção. E, além disso, para quem utiliza esses produtos, a discussão também envolve saber em quais informações confiar.

Uma receita conhecida também precisa de cuidados

Reconhecer o valor das plantas medicinais não significa considerar qualquer preparo adequado para qualquer pessoa.

A espécie utilizada, a parte da planta, a quantidade e a forma de preparo precisam ser observadas. O Ministério da Saúde reconhece a fitoterapia entre as práticas oferecidas no SUS e, ao mesmo tempo, recomenda acompanhamento profissional para seu uso seguro.

Um cuidado que costuma passar despercebido é a combinação com medicamentos. Podem ocorrer interações medicamentosas, situações em que uma substância modifica o efeito de outra. Por isso, contar na consulta quais chás, plantas e produtos naturais você utiliza também faz parte do cuidado, mesmo que tenham sido preparados em casa.

O fato de uma receita ser familiar não elimina a necessidade de avaliar seu uso, uma vez que, essas preparações também podem causar danos quando utilizadas sem orientação.

A primeira descoberta ainda não é um tratamento

O uso tradicional pode orientar perguntas importantes: qual espécie é utilizada, que parte da planta é preparada e para qual finalidade? Esses registros ajudam a direcionar a investigação, mas não respondem, sozinhos, se uma formulação funciona para determinada doença.

A identificação correta é fundamental. Um nome popular pode não ser suficiente para reconhecer a espécie estudada. A regulamentação da Anvisa exige que as referências utilizadas na avaliação apresentem a nomenclatura botânica, isto é, a identificação científica da planta.

Depois, é necessário caracterizar o material e investigar sua atividade. Um resultado promissor em laboratório representa uma possibilidade de pesquisa. Não demonstra, por si só, benefício em pacientes.

Também existem caminhos diferentes. Um fitoterápico utiliza preparações vegetais como insumo ativo. Outra linha de desenvolvimento pode investigar uma substância específica como ponto de partida para um novo fármaco, a substância responsável pela ação de um medicamento. Essas trajetórias não têm necessariamente as mesmas exigências técnicas.

Funciona para quem, em qual dose e com quais riscos?

Para um medicamento fitoterápico, a Anvisa prevê comprovação de segurança e eficácia por estudos não clínicos e clínicos, ou por uma via simplificada quando o insumo e suas condições de uso atendem às referências aceitas pela agência.

Os estudos não clínicos investigam o produto antes de sua avaliação em pessoas. Os clínicos examinam seu uso em participantes humanos. É nesse percurso que precisam ser respondidas perguntas sobre benefício, dose e riscos nas condições propostas.

O que precisa ser avaliado é o produto e seu modo de uso. Uma conclusão sobre determinado extrato não pode ser transferida automaticamente para qualquer chá, cápsula ou preparação que tenha o mesmo nome de planta.

Há ainda uma categoria regulatória de medicamentos tradicionais fitoterápicos, com requisitos próprios e possibilidade de utilizar evidências de uso tradicional nas condições previstas. Isso não transforma todo uso popular em eficácia clínica comprovada.

O Ministério da Saúde também ressalta que plantas podem ser tóxicas ou prejudiciais quando utilizadas incorretamente. “Natural” não significa automaticamente seguro.

Quando a receita chega pelo celular

Nas redes sociais, uma recomendação pode chegar acompanhada de depoimentos emocionados, linguagem científica e aparência de autoridade.

Esses recursos tornam a mensagem convincente, mas não demonstram que o tratamento funciona. Um relato de melhora não permite saber o que provocou o resultado nem se outras pessoas terão o mesmo benefício.

A Anvisa já alertou para conteúdos com supostos gurus e xamãs criados por inteligência artificial que divulgam orientações sem respaldo científico. A agência destaca que esses materiais podem ser modificados e compartilhados em larga escala, com potencial para prejudicar tratamentos de saúde.

Promessas de cura para muitas doenças, fórmulas com numerosas plantas e anúncios de soluções “100% naturais e sem riscos” merecem desconfiança. Popularidade na internet não comprova segurança ou eficácia.

Antes de seguir uma receita ou comprar um produto, vale verificar quem está orientando, se as credenciais profissionais são verdadeiras e quais fontes sustentam a indicação.

A Anvisa recomenda conferir o registro do profissional no conselho da categoria. Também alerta que medicamentos devem ser adquiridos em farmácias regularizadas ou em seus sites oficiais.

Além de conferir quem recomenda, é importante verificar o próprio produto. Medicamentos fitoterápicos devem estar regularizados na Anvisa, por registro ou notificação, conforme a categoria.

Essa situação pode ser consultada nos canais oficiais da agência: estar à venda na internet ou trazer um número na embalagem não substitui a verificação.

Para verificar a regularização, acesse a consulta de medicamentos da Anvisa: disponível aqui. Pesquise pelo nome do produto, empresa ou número de registro e confira a situação apresentada.

Se a embalagem informar “medicamento notificado”, consulte o sistema específico: disponível aqui.

A regularização também não dispensa orientação sobre indicação, dose e possíveis riscos para cada pessoa.

Produzir uma amostra é diferente de produzir todos os lotes

Mesmo quando a pesquisa avança, surge outra pergunta: como garantir que o medicamento fabricado depois mantenha as características do produto avaliado?

É o desafio da padronização, ou seja, estabelecer critérios de composição e qualidade que possam ser verificados na produção. A indústria precisa controlar o insumo vegetal e o processo utilizado para obter o extrato.

Imagine que um estudo investigue uma preparação com características definidas. Se a fabricação posterior entrega um material diferente, não basta dizer que ambos vieram da mesma planta.

Esse é um dos pontos enfrentados pelo novo marco da Anvisa. As regras distinguem situações em que a substância responsável pela atividade é conhecida daquelas em que existe eficácia demonstrada, mas não é possível atribuí-la a um único componente. Os requisitos de controle devem considerar essas diferenças.

A pesquisa precisa de continuidade para chegar à produção

O Brasil possui universidades, institutos, empresas, centros tecnológicos e órgãos de financiamento, mas precisa conectá-los em uma estratégia duradoura.

Financiar a descoberta inicial não resolve todas as etapas seguintes. Estudos adicionais, desenvolvimento da formulação, transferência de tecnologia e produção industrial também precisam de recursos e equipes.

A passagem do laboratório para a fabricação em maior escala exige o chamado escalonamento: adaptar e verificar o processo para produzir quantidades maiores. Para o pesquisador, parcerias entre instituições científicas e empresas são parte importante dessa continuidade.

Uma publicação ou patente não equivale a um medicamento disponível. Entre demonstrar uma possibilidade e oferecer um produto há decisões técnicas, investimentos e responsabilidades que precisam ser assumidos.

O conhecimento das comunidades faz parte desse caminho

Quando a investigação utiliza conhecimentos de povos indígenas, comunidades tradicionais ou agricultores tradicionais, reconhecer sua contribuição envolve direitos concretos.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o acesso ao conhecimento tradicional associado de origem identificável exige consentimento prévio informado. Isso significa obter a concordância dos detentores antes do acesso, respeitando as condições previstas na legislação.

Também existem regras de cadastro das atividades e de repartição de benefícios decorrentes da exploração econômica, conforme o caso. Os benefícios podem envolver modalidades monetárias e não monetárias, observadas as exigências legais aplicáveis.

A contribuição de uma comunidade não começa quando o produto chega ao mercado. Por isso, o respeito a seus direitos precisa integrar o planejamento da pesquisa e do desenvolvimento.

Chegar ao paciente é outra etapa da inovação

Mesmo após a autorização sanitária, o acesso depende de produção, fornecimento e organização dos serviços. No SUS, a incorporação de um fitoterápico para financiamento federal passa pela avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias, a Conitec.

O Ministério da Saúde informa que a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais inclui 12 fitoterápicos. Já a lista de plantas de interesse do SUS reúne 71 espécies para orientar pesquisas. Estar nessa lista de interesse não significa que toda preparação da planta esteja aprovada para tratar doenças.

Aproveitar melhor a biodiversidade brasileira envolve apoiar pesquisas e criar condições para que seus resultados cheguem à população.

Também envolve oferecer informação acessível a quem já utiliza plantas no dia a dia, para que tradição, orientação profissional e conhecimento científico possam dialogar.

Entre a receita de família e o vídeo que aparece no celular, vale preservar uma pergunta: o que sabemos sobre esse uso e o que ainda precisa ser investigado? Valorizar as plantas medicinais também é levar seus efeitos a sério.

💬 Você costuma contar ao profissional de saúde quais chás e plantas utiliza? Compartilhe esta notícia com quem também guarda uma receita de família.

Fontes:

Calixto, João Batista. Paradoxo da biodiversidade: por que ainda é tão difícil para o Brasil transformar suas plantas medicinais em produtos farmacêuticos. The Conversation Brasil, 10 set. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 28 out. 2026.

Anvisa. Anvisa publica Perguntas e Respostas sobre as novas normas de fitoterápicos. 13 out. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 28 out. 2026.

Anvisa. Resolução da Diretoria Colegiada nº 1.004, de 17 de dezembro de 2025. Dispõe sobre o registro de medicamentos fitoterápicos e o registro e a notificação de medicamentos tradicionais fitoterápicos. Disponível aqui. Acesso em: 28 out. 2026.

Ministério da Saúde. Plantas medicinais e fitoterápicos no SUS. Disponível aqui. Acesso em: 28 out. 2026.

Vanessa MirandaEditora Técnica e Enfermeira Mestre em SaúdeRevisado por: Diogo Strauch RibeiroMédico Clínico Geral — CRM 5293516-6
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