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Do prato caseiro ao ultraprocessado: como nossa alimentação mudou, e o que isso diz sobre nós

Em poucas décadas, o tempo na cozinha diminuiu, as prateleiras se encheram de produtos prontos e o corpo humano começou a sentir o peso do mundo moderno.

4 min de leituraPublicado em 20/10/2025
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Do prato caseiro ao ultraprocessado: como nossa alimentação mudou, e o que isso diz sobre nós

Se alguém viajasse no tempo dos anos 1980 para hoje e abrisse uma geladeira comum, talvez não reconhecesse boa parte do que visse.

As panelas perderam espaço para embalagens coloridas, comidas prontas e bebidas que prometem energia instantânea. A rotina corrida e a busca por praticidade mudaram radicalmente o jeito como a humanidade se alimenta.

Segundo especialistas, "nunca comemos tantos alimentos ultraprocessados, como agora". Assim, entre os mais agressivos à saúde, e também mais consumidos, estão refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos de pacote, embutidos (como salsicha, presunto e mortadela), macarrão instantâneo e comidas congeladas prontas.

Pesquisas da Universidade de São Paulo e da Organização Pan-Americana da Saúde mostram que esses cinco grupos de alimentos respondem por mais de 60% do total de ultraprocessados consumidos no Brasil, sendo os refrigerantes e os salgadinhos os campeões entre jovens e crianças.

O que aconteceu desde os anos 80

Lá atrás, o almoço ainda era preparado em casa, com arroz, feijão, verduras e carnes frescas. Mas, com o passar dos anos, a urbanização, o aumento da jornada de trabalho e o avanço da indústria alimentícia criaram uma combinação explosiva: comida mais prática, porém mais calórica e pobre em nutrientes.

Estudos mostram que as porções cresceram, o número de refeições fora de casa disparou e o marketing passou a influenciar fortemente até as crianças. Assim, os produtos ficaram mais baratos e acessíveis, mas o preço de saúde subiu.

O documentário da BBC “What Are We Feeding Our Kids?” (“O que estamos dando de comer às nossas crianças?”) escancarou essa realidade. O médico Chris van Tulleken fez um experimento, no qual durante um mês, 80% de sua dieta foi composta por alimentos ultraprocessados.

O resultado? Ele ganhou peso, teve alterações de humor e apetite descontrolado, tudo em poucas semanas.

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Fonte: BBC News

A experiência ilustra o que a ciência vem alertando há décadas, onde esses produtos são desenhados para serem irresistíveis, combinando gorduras, açúcares e aditivos que enganam nosso cérebro e nos fazem comer mais do que precisamos.

Os números não mentem

Estudos brasileiros e internacionais apontam que esses produtos concentram altas quantidades de açúcar, gorduras saturadas, sódio e aditivos químicos, mas oferecem baixo valor nutricional e alta densidade calórica, o que favorece o ganho de peso e o desenvolvimento de doenças crônicas.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a obesidade global mais do que dobrou desde 1990, e entre crianças e adolescentes o crescimento foi ainda maior.

No Brasil, dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF/IBGE) mostram que um em cada três adultos está acima do peso, e os ultraprocessados já representam cerca de 20% das calorias consumidas.

A ciência também vem evidenciando ligações entre esse tipo de dieta e doenças como diabetes tipo 2, hipertensão, problemas cardiovasculares e até alguns tipos de câncer.

Nesse contexto, a indústria ainda segue no comando do prato, onde cereais “infantis” com mais açúcar que uma sobremesa a iogurtes “saudáveis” cheios de aditivos, seguem moldando o paladar de gerações inteiras.

Além disso, brindes, personagens e slogans cativantes transformaram o ato de comer em um show de estímulos.

Como resultado, crianças estão sendo expostas a alimentos ultraprocessados desde cedo, criando hábitos que se mantêm pela vida adulta.

Nos últimos anos, vários países começaram a reagir:

↪︎ O México criou impostos sobre bebidas açucaradas e viu cair o consumo de refrigerantes.

↪︎ O Chile adotou rótulos frontais de advertência (“alto em açúcar”, “alto em sal”, “alto em gordura”) e restringiu a publicidade infantil.

↪︎ O Brasil seguiu parte desse caminho, com novas regras de rotulagem e discussões sobre taxação.

Mas o desafio ainda é gigante, a conveniência continua vencendo o tempo e o cansaço da vida moderna.

Voltar ao básico pode ser o novo futuro

Os especialistas são unânimes: não se trata de “demonizar” o alimento industrializado, mas de recuperar o equilíbrio. Priorizar ingredientes frescos, cozinhar mais em casa e ler os rótulos já faz diferença.

Em outras palavras, a alimentação do futuro talvez seja um retorno inteligente ao passado. Porque, no fim das contas, comer bem ainda é o jeito mais simples, e mais poderoso, de cuidar da saúde.

Vanessa MirandaEditora Técnica e Enfermeira Mestre em SaúdeRevisado por: Diogo Strauch RibeiroMédico Clínico Geral — CRM 5293516-6
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