Doar sangue pode reduzir “químicos eternos” no corpo
Estudo com bombeiros mostrou queda de PFAS após doações regulares de sangue ou plasma durante um ano.

Um estudo clínico publicado na revista científica JAMA Network Open investigou algo curioso. Doar sangue ou plasma pode ajudar a reduzir no corpo a quantidade de PFAS, conhecidos como “químicos eternos”.
A pesquisa acompanhou bombeiros na Austrália durante um ano e encontrou queda significativa dessas substâncias em quem fez doações regulares.
O tema importa porque os PFAS estão espalhados no ambiente e praticamente todas as pessoas têm algum nível dessas moléculas no sangue.
O que são os “químicos eternos”?
Os PFAS (substâncias per e polifluoroalquil) são um grupo grande de compostos químicos criados pela indústria desde as décadas de 1940 e 1950.
Eles ficaram populares porque são extremamente resistentes ao calor, à gordura e à água. Por isso aparecem em muitos produtos do dia a dia, como:
• Panelas antiaderentes;
• Embalagens de alimentos;
• Tecidos impermeáveis;
• Alguns cosméticos e maquiagens;
• Espumas usadas no combate a incêndios.
O problema é que essas moléculas praticamente não se degradam. Por isso ganharam o apelido de “químicos eternos”.
Na prática, é como se fossem peças de plástico microscópicas que o corpo tem muita dificuldade de quebrar. Elas acabam permanecendo no organismo por anos.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras agências de saúde, traços de PFAS já foram encontrados em água, solo, alimentos e até no sangue da maioria da população.
PFAS estão no ambiente e podem estar ligados a riscos à saúde
Hoje, evitar completamente os PFAS é praticamente impossível. Nesse contexto, pesquisas científicas vêm investigando possíveis impactos dessas moléculas no organismo.
Assim, já foi observado associações entre níveis mais altos de PFAS e alguns problemas de saúde, como:
• Colesterol elevado;
• Alterações hormonais;
• Problemas na fertilidade;
• Menor resposta do sistema imunológico a vacinas;
• Alguns tipos de câncer
Mas é importante entender um detalhe essencial da ciência. Esses estudos mostram correlações, não necessariamente causa direta.
Em outras palavras, as pesquisas identificam que as duas coisas aparecem juntas, mas ainda não é possível afirmar que os PFAS provocam diretamente essas doenças.
O estudo com bombeiros australianos
A pesquisa acompanhou 285 bombeiros na Austrália, um grupo escolhido porque esses profissionais costumam ter exposição maior aos PFAS.
Isso ocorre principalmente pelo contato com espumas usadas para apagar incêndios.
Os participantes foram divididos em três grupos durante 12 meses:
→ Grupo observação: não fez doações.
→ Grupo plasma: doação de plasma a cada seis semanas.
→ Grupo sangue: doação de sangue a cada 12 semanas.
O plasma é a parte líquida do sangue, aquela fração amarelada que transporta proteínas, hormônios e nutrientes pelo corpo.
Ao longo do estudo, os pesquisadores mediram regularmente os níveis de PFAS no sangue dos participantes. O resultado chamou atenção.
Quem doou plasma ou sangue teve redução significativa de um dos principais PFAS, chamado PFOS (perfluorooctanossulfonato), quando comparado ao grupo que não fez doação.
Entre as estratégias, a doação de plasma apresentou a maior redução.
Por que a doação pode reduzir essas substâncias?
Os PFAS circulam no sangue e se ligam a proteínas presentes no plasma.
Pensa comigo. Se parte do sangue ou do plasma é retirada durante uma doação, uma parte dessas moléculas vai junto.
O organismo depois produz sangue novo, mas os PFAS não voltam na mesma velocidade.
Por isso os níveis no corpo tendem a diminuir gradualmente com doações regulares.
Uma dúvida comum é se esses “químicos eternos” presentes no sangue do doador poderiam ser transferidos para quem recebe a transfusão. E nesse sentido, a ciência indica que esse risco é considerado muito baixo.
Primeiro porque os PFAS já estão presentes no organismo da maioria das pessoas, devido à exposição cotidiana por água, alimentos e produtos do dia a dia. Ou seja, o receptor provavelmente já possui essas substâncias no próprio sangue.
Além disso, a quantidade que poderia ser transferida em uma transfusão é pequena quando comparada à exposição ambiental que acontece ao longo da vida.
Até hoje, não há evidência científica de doenças causadas por PFAS transmitidos por transfusão, por isso bancos de sangue não fazem triagem específica para essas moléculas.
Especialistas reforçam que os benefícios da transfusão de sangue, que salva milhões de vidas todos os anos, são muito maiores do que qualquer risco teórico relacionado a essas substâncias.
Antes de tudo, doar sangue é um ato de solidariedade
Os próprios pesquisadores ressaltam que o estudo não significa que a doação de sangue deve ser feita com objetivo médico individual.
A doação continua sendo, sobretudo, um ato de solidariedade que salva vidas.
Mas o estudo abre uma hipótese interessante. Doações regulares podem também ajudar a reduzir níveis de PFAS no organismo.
Mesmo assim, os pesquisadores reforçam que ainda são necessários mais estudos para entender o quanto essa redução pode impactar a saúde, se o efeito acontece da mesma forma em outras populações e qual seria a frequência ideal para esse efeito.
E fica uma reflexão simples. Se um gesto que salva outras vidas também puder trazer benefícios indiretos para o nosso corpo, vale pelo menos pensar nisso.
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