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Endometriose: SUS aprova novo protocolo e remédio inédito avança

Ministério da Saúde muda as regras de tratamento, Brasil ganha consenso médico e remédio não hormonal é testado nos EUA.

8 min de leituraPublicado em 31/08/2026
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Endometriose: SUS aprova novo protocolo e remédio inédito avança

2026 tem marcado o calendário de quem convive com endometriose. Ao longo do ano o Ministério da Saúde aprovou um novo protocolo nacional de tratamento pelo SUS e duas sociedades médicas brasileiras lançaram um consenso atualizado sobre o controle da dor.

Além disso, uma diretriz internacional trouxe recomendações renovadas para o mundo todo e um remédio experimental, não hormonal, começou a ser testado em seres humanos nos Estados Unidos.

Para as cerca de 7 milhões de brasileiras que vivem com a doença, muitas delas depois de anos batalhando por um diagnóstico, esse conjunto de novidades pode significar um caminho mais curto até o tratamento certo.

O desafio para quem convive com a doença

A endometriose acontece quando um tecido parecido com o endométrio passa a crescer fora dele, grudando em locais como ovários, intestino, bexiga e outras estruturas da pelve.

O endométrio é a camada que reveste o interior do útero e descama todo mês na menstruação.

É como se uma planta escapasse do canteiro onde foi plantada e criasse raízes espalhadas pelo jardim inteiro, inflamando cada pedaço de terra onde se instala. É mais ou menos assim que o tecido da endometriose se comporta dentro do corpo, causando dor, inflamação crônica e, em muitos casos, dificuldade para engravidar.

No Brasil, o Ministério da Saúde estima que a doença atinja entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva, o equivalente a cerca de 7 milhões de brasileiras.

No mundo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que sejam mais de 190 milhões de mulheres e meninas.

E, apesar de tão comum, o diagnóstico costuma demorar: a Sociedade Brasileira de Endometriose e Cirurgia Minimamente Invasiva (SBE) estima de 7 a 10 anos entre o início dos sintomas e a confirmação da doença por aqui, um atraso parecido com o observado no Reino Unido, onde a Instituição Endometriosis UK fala em cerca de nove anos.

O que muda no atendimento pelo SUS?

A notícia mais concreta para quem depende da rede pública é a Portaria Conjunta SAES/SAPS/SCTIE nº 54, publicada em 29 de julho de 2026, que aprovou o novo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), ou seja, o documento oficial que padroniza como o SUS deve diagnosticar, tratar e acompanhar a endometriose em todo o país.

Essa atualização substitui a portaria anterior, que era de 2016, e passa a valer imediatamente para estados, municípios e o Distrito Federal.

No cenário atual, o novo protocolo formaliza a entrada de duas opções de tratamento hormonal já incorporadas ao SUS em 2025:

DIU-LNG - Dispositivo intrauterino liberador de levonorgestrel, que solta aos poucos um hormônio para conter o crescimento do tecido e pode ficar no corpo por até cinco anos;

Desogestrel - Um progestagênio em comprimido que pode ser prescrito já na primeira avaliação clínica.

A norma também torna obrigatório informar a paciente, com clareza, sobre os riscos e efeitos colaterais de cada medicamento ou procedimento indicado, e exige que estados e municípios organizem uma rede de referência para os casos mais complexos.

O novo consenso brasileiro explica a dor passo a passo

Enquanto o governo cuidava da parte regulatória, a comunidade médica também se movimentou.

Agora em agosto, a SBE e a Comissão Nacional Especializada em Endometriose da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) lançaram dois novos capítulos do Consenso Brasileiro sobre Endometriose, dedicados especificamente ao tratamento da dor pélvica, que afeta cerca de 90% das pacientes.

O primeiro capítulo trata do tratamento medicamentoso. A lógica por trás disso é simples: os anticoncepcionais hormonais combinados e os progestagênios isolados continuam sendo a primeira linha de tratamento, sempre de forma individualizada, já que nenhuma opção hormonal comprovou ser superior às demais.

Quando esse primeiro passo não resolve, entram os agonistas de GnRH, que é um hormônio liberador de gonadotrofina, que "desliga" temporariamente a produção hormonal dos ovários, estes devem sempre estar combinados com uma terapia de proteção óssea chamada add-back.

Antagonistas orais de GnRH mais novos, como elagolix, linzagolix e relugolix, aparecem como alternativas promissoras, mas ainda não estão disponíveis no Brasil.

Para a dor em si, a recomendação segue uma escala: começa com paracetamol, dipirona e anti-inflamatórios, e reservar os opioides para situações restritas.

O documento também é direto ao afirmar que não há evidência robusta para o canabidiol nem benefício comprovado dos implantes hormonais de gestrinona no tratamento da doença.

O segundo capítulo, sobre terapias complementares, reconhece que cerca de 90% das pacientes já recorrem a esse tipo de apoio e mostra quais delas realmente têm respaldo científico.

Fisioterapia pélvica e acupuntura aparecem com as evidências mais consistentes para reduzir a dor, a ioga ajuda na qualidade de vida, e intervenções psicológicas como terapia cognitivo-comportamental e mindfulness mostram efeito positivo sobre dor, ansiedade e depressão.

Dietas anti-inflamatórias, como a mediterrânea, e a dieta low-FODMAP se destacam na melhora de sintomas intestinais, e suplementos antioxidantes (vitaminas C, E e melatonina) têm efeito moderado, ainda com evidências heterogêneas.

O recado do consenso é claro: essas terapias são um complemento, nunca um substituto do tratamento hormonal ou cirúrgico já estabelecido.

O que diz a diretriz internacional mais recente?

Lá fora, a Sociedade de Obstetras e Ginecologistas do Canadá (SOGC) também atualizou sua diretriz sobre o manejo clínico da endometriose.

E em vez de um roteiro único que serve para todas as pacientes, o documento defende um plano de tratamento sob medida, que leva em conta idade, desejo de engravidar, intensidade dos sintomas e preferências pessoais.

Entre os pontos mais práticos está a recomendação de que, quando a cirurgia é necessária, a retirada completa das lesões tende a trazer resultados melhores do que apenas a "queima" da superfície do tecido.

A diretriz também recomenda o uso de ferramentas como o Índice de Fertilidade da Endometriose para ajudar a estimar as chances de engravidar após a cirurgia.

Além disso, há o alerta de que a remoção de cistos ovarianos causados pela doença, os chamados endometriomas, pode melhorar os sintomas, mas também reduzir a reserva de óvulos, o que exige uma conversa cuidadosa entre paciente e equipe médica antes de qualquer decisão.

ENDO-205: uma pista de tratamento em teste, ainda não uma cura

A notícia que mais viralizou nas redes envolve o ENDO-205, um medicamento experimental da farmacêutica americana EndoCyclic Therapeutics.

Em março deste ano, o FDA (agência regulatória de medicamentos dos Estados Unidos) liberou o pedido de Investigational New Drug (IND), ou seja, autorizou a empresa a começar a testar o remédio em seres humanos.

Isso não é a mesma coisa que aprovação: é apenas o primeiro degrau de uma escada longa, algo como tirar a primeira licença para dirigir e não uma prova de que o motorista já é experiente.

O que chama atenção no ENDO-205 é a proposta, uma vez que, diferente dos tratamentos hormonais atuais, que suprimem os sintomas ao mexer no ciclo hormonal, ele é não hormonal e foi desenhado para atacar diretamente as lesões da endometriose, tentando eliminá-las em vez de apenas conter seu crescimento.

O estudo de fase 1, que é a primeira etapa de teste em humanos e serve principalmente para avaliar segurança, será feito em mulheres saudáveis, na fase reprodutiva e antes da menopausa.

Ainda faltam anos de pesquisa até que se saiba se o remédio realmente funciona e é seguro o suficiente para chegar às farmácias.

Da notícia para a sua rotina: por onde começar?

Não normalize a cólica que te tira da rotina. Faltar à escola, ao trabalho ou a compromissos todo mês por causa da dor não é "frescura", é sinal de que vale investigar.

Procure um ginecologista com experiência em endometriose. O acompanhamento especializado ajuda a encurtar o caminho até o diagnóstico e a escolher o tratamento mais adequado ao seu caso.

Pergunte sobre as opções do SUS. O DIU-LNG e o desogestrel já fazem parte do protocolo oficial e podem ser discutidos com o médico responsável.

Use as terapias complementares como apoio, não como substituto. Fisioterapia pélvica, acupuntura, ioga e ajuda psicológica têm respaldo científico, mas funcionam junto do tratamento principal, não no lugar dele.

Desconfie de "curas milagrosas" da internet. O ENDO-205 é uma pesquisa promissora, mas está muito longe de estar disponível para uso.

Quando procurar ajuda médica?

• Dor pélvica ou cólica menstrual forte o suficiente para te impedir de trabalhar, estudar ou fazer atividades do dia a dia, mês após mês.

• Dor durante a relação sexual, sangramento fora do padrão ou dificuldade para engravidar mesmo tentando há algum tempo.

O que essas novidades têm em comum é uma mudança de postura: sair do "aguenta que já passa" para um cuidado mais estruturado, com protocolo público atualizado, consenso médico mais claro e pesquisa avançando, mesmo que em passos pequenos.

A ciência ainda não chegou à cura, mas está, aos poucos, deixando de tratar a dor da endometriose como algo que a mulher precisa simplesmente aprender a conviver.

💬 E você, já foi diagnósticada ou suspeita de endometriose? Conte pra gente nos comentários como está sendo a sua trajetória.

📣 Se essa notícia foi útil, deixe seu gostei e compartilhe com alguma amiga que ainda não sabe que existe vida (e tratamento) depois do diagnóstico de endometriose!

Fontes:

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Atenção Primária à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Portaria Conjunta nº 54, de 2 de junho de 2026. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose. Diário Oficial da União, Brasília, 29 jul. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 31 ago. 2026.

Sociedade Brasileira de Endometriose e Cirurgia Minimamente Invasiva (SBE); Comissão Nacional Especializada em Endometriose da Febrasgo. Consenso Brasileiro sobre Endometriose: capítulos de tratamento clínico farmacológico e complementar da dor. São Paulo, ago. 2026. Acesso em: 31 ago. 2026.

EndoCyclic Therapeutics. FDA clears ENDO-205 Investigational New Drug application for endometriosis. Comunicado de imprensa, Irvine (EUA), 23 mar. 2026. Acesso em: 31 ago. 2026.

YONG, Paul J. et al. Guideline No. 468: Clinical Management of Endometriosis. Journal of Obstetrics and Gynaecology Canada, v. 48, n. 6, p. 103382, 2026. DOI: 10.1016/j.jogc.2026.103382.

Vanessa MirandaEditora Técnica e Enfermeira Mestre em SaúdeRevisado por: Diogo Strauch RibeiroMédico Clínico Geral — CRM 5293516-6
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