Estados Unidos retira tarja preta das terapias hormonais da menopausa e busca reparar erro histórico
Após quase duas décadas de estigmatização da TRH, a mudança esclarece que tratamento pode beneficiar mulheres, mas não significa que seja livre de riscos.

A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, anunciou que iniciou o processo de remoção da chamada “tarja preta” (black box warning) de vários medicamentos de Terapia de Reposição Hormonal (TRH) para menopausa.
Essa decisão marca um ajuste significativo em políticas de saúde da mulher, pois segundo o FDA, “milhões de mulheres foram negadas os benefícios de longo prazo [da TRH] por causa de um dogma médico arraigado em distorção de risco”.
Terapia de Reposição Hormonal
A TRH refere-se ao uso de estrogênios sozinhos ou combinados com progestina (ou progesterona) para repor, ou suplementar, os níveis hormonais que diminuem com a menopausa.
O objetivo principal é aliviar sintomas como ondas de calor (fogachos), sudorese noturna, secura vaginal, alterações do sono, além de, em determinados casos, preservar saúde óssea e, potencialmente, outros benefícios.
Todos os medicamentos que contêm estrogênios trazem advertências porque podem elevar riscos de derrame, trombose, câncer de mama ou endométrio, dependendo de dose, via de administração, tempo de uso e características da mulher.
Porém, como veremos adiante, muitos desses alertas válidos foram generalizados de modo que acabaram criando barreiras exageradas.
Condenação da TCRH: o papel do estudo Women’s Health Initiative
No fim dos anos 90, o estudo WHI, um dos maiores ensaios governamentais sobre saúde da mulher, investigou os efeitos do uso hormonal na pós-menopausa.
A média de idade das mulheres no estudo era elevada (em torno de 63 anos) e elas iniciaram a TRH já muitos anos após o início da menopausa. Além disso, usaram formulações de estrogênios “de cavalos” (como conjugados equinos) e combinações que hoje são menos comuns.
Quando os resultados foram divulgados, a mensagem amplificada foi de que a TRH aumentava o risco de câncer de mama, infarto, derrame, demência. Assim, a mídia e a prática clínica reagiram fortemente.
O FDA então colocou a tarja preta nos rótulos, alertando para risco aumentado de doenças cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais, trombose, demência e câncer.
Isso fez com que muitos médicos e muitas mulheres passassem a evitar a TRH, até mesmo quando poderia haver benefício claro, uma vez que, a mensagem passou a ser “hormônio = perigoso”, sem considerar quem, quando, como.
Nesse cenário, como resume o FDA hoje: “uma geração de mulheres foi privada dos benefícios dessa terapia por causa de medo e rotulagem”.
Por que a mudança agora
Segundo o FDA, a revisão recente da literatura científica apontou que os riscos foram supergeneralizados e que, em muitos casos, quando a TRH é iniciada em momento adequado (por exemplo dentro de 10 anos após o início da menopausa ou antes dos 60 anos) e em mulheres sem contraindicações, os benefícios podem superar os riscos.
Alguns dados destacados pelo FDA:
↪︎ Em análise de mais de 30 ensaios com ~26.700 mulheres, não se observou aumento da mortalidade por câncer entre usuárias de TRH.
↪︎ O rótulo revisado sugerirá iniciar a terapia dentro de 10 anos do início da menopausa ou antes dos 60 anos para terapia sistémica.
Além disso, o FDA aprovou dois novos medicamentos para sintomas da menopausa, uma versão genérica de Premarin (estrogênios conjugados) e um tratamento não hormonal para sintomas vasomotores.
Dessa forma, a agência busca corrigir a narrativa, incorporando evidência mais refinada e diferenciando cenários de risco/benefício, o que, na avaliação de várias especialistas, era urgente.
Significado dessa mudança
Para mulheres que enfrentam a menopausa e seus sintomas, esta decisão do FDA representa esperança e abertura para tratamento que pode melhorar qualidade de vida.
Para profissionais de saúde significa a necessidade de atualizar protocolos, de se aprofundar em evidências, de fazer orientações mais claras sobre indicação, contraindicação, tempo de início, formulação, dose e via.
No contexto brasileiro, embora a regulação seja conduzida por Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e não pelo FDA, decisões e estudos norte-americanos frequentemente influenciam o panorama internacional, então este movimento pode gerar impacto indireto também em instruções para a prática brasileira.
O impacto regulatório direto pode demorar ou seguir caminhos distintos, assim devemos ter cuidado com generalizações diretas.
A retirada da tarja preta não significa que a TRH seja um tratamento para todas as doenças da idade (como prevenção primária de câncer ou demência), alguns benefícios potenciais existem, mas não substituem estratégias específicas para essas condições.
Por exemplo, o FDA enfatiza que TRH deve ser por indicação para menopausa, não como tratamento principal para osteoporose ou doença cardiovascular.
O contrário não pode ocorrer
Não interpretemos que o tratamento hormonal se tornou automaticamente livre de riscos ou que toda mulher pode tomá-lo sem avaliação: isso seria um erro inverso tão grave quanto o erro original.
A decisão histórica do FDA para remover a tarja preta das terapias hormonais da menopausa representa uma correção de rumo após décadas em que muitas mulheres foram desencorajadas a usar tratamentos úteis. No entanto, essa correção não representa uma “liberação geral” indiscriminada.
Nesse contexto, a educação da paciente e do profissional é essencial: a conversa precisa abordar benefícios, riscos, alternativas, duração, monitoramento.



