Estudo brasileiro revela como Zika deixa marcas profundas na infância até os 10 anos
Maior pesquisa global sobre sequelas do vírus mapeia microcefalia e outros problemas de desenvolvimento em quase 850 crianças nascidas durante a epidemia no Brasil.

Pesquisadores brasileiros publicaram no fim de dezembro de 2025 o maior estudo já feito no mundo sobre as sequelas do vírus Zika em crianças nascidas durante a grande epidemia que afetou o Brasil entre 2015 e 2016.
A pesquisa envolveu 843 crianças com sequelas associadas ao Zika em 12 centros de investigação distribuídos pelas regiões Norte, Nordeste e Sudeste do país.
O que é o Zika e por que ele é perigoso?
O vírus Zika é transmitido principalmente pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo que transmite dengue e chikungunya, e costuma causar sintomas leves ou nenhum sintoma em adultos, como febre baixa, mal-estar ou manchas vermelhas na pele.
O problema maior ocorre quando a infecção acontece durante a gravidez.
Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que a infecção materna pode causar microcefalia, condição em que o bebê nasce com a cabeça menor do que o esperado, e outras malformações congênitas.
Microcefalia e além: as descobertas principais
Após a epidemia de Zika no Brasil, diversos grupos de pesquisa começaram a acompanhar crianças afetadas pelo vírus em diferentes estados. O problema é que cada estudo, isoladamente, tinha número limitado de crianças, métodos diferentes de avaliação e resultados difíceis de comparar entre si.
Então, sozinhos, esses estudos respondiam apenas parte das perguntas, assim, foi criado o Zika Brazilian Cohorts Consortium.
O consórcio reuniu e padronizou os dados originais de diferentes pesquisas brasileiras, o que permitiu uma análise mais robusta e comparável dos efeitos do vírus no desenvolvimento das crianças.
O levantamento detalhado revelou que:
↪︎ A microcefalia, definida como cabeça menor do que o esperado para a idade, esteve presente em 71,3% das crianças, sendo grave em 63,9% desses casos.
↪︎ Em 20,4% dos casos, a microcefalia só se manifestou depois do nascimento, uma condição chamada microcefalia pós-natal.
↪︎ A prematuridade (nascimento antes das 37 semanas) foi observada em cerca de 10% a 20% dos casos.
↪︎ Baixo peso ao nascer foi comum, com uma média de 33,2% de crianças afetadas.
Além disso, foram constatadas alterações estruturais no cérebro por meio de exames de neuroimagem, incluindo calcificações cerebrais (acúmulo anormal de cálcio), ventriculomegalia (cavidades cerebrais ampliadas) e atrofia cortical (redução da massa cerebral).
Consequências no desenvolvimento neurológico e sensorial
As dificuldades neurológicas foram significativamente frequentes:
↪︎ Déficit de atenção social em cerca de metade das crianças.
↪︎ Epilepsia, uma condição caracterizada por crises ou convulsões, variou de 30% a 80% dos casos, com média de 58,3%.
↪︎ Reflexos primitivos persistentes, ou seja, respostas neurológicas que normalmente desaparecem com o desenvolvimento, ocorreram em mais de 63% das crianças.
As alterações nos sentidos também foram observadas, com até 67,1% exibindo problemas de visão e uma parte apresentando alterações auditivas.
Impacto na vida escolar e no cotidiano
O estudo mostra que muitas dessas crianças, agora com idades entre 8 e 10 anos, enfrentam graves desafios na inclusão escolar.
Algumas apresentam paralisia cerebral grave ou dificuldades significativas de aprendizado e atenção que prejudicam o desempenho escolar.
É importante destacar que mesmo crianças cujas mães tiveram Zika na gravidez, mas que não nasceram com microcefalia, estão sendo acompanhadas, porque podem desenvolver atrasos ou distúrbios no desenvolvimento mais tarde.
Esse acompanhamento contínuo é considerado essencial para permitir intervenções precoces que minimizem impactos negativos no futuro delas.
Os pesquisadores do consórcio afirmam que continuarão acompanhando as crianças ao longo do tempo para entender como essas sequelas evoluem na adolescência e na vida adulta.
A investigação prolongada é fundamental para desenvolver políticas públicas mais eficazes e programas de apoio às famílias afetadas.
Entender esses dados do estudo é fundamental, porque eles mostram que os efeitos do vírus Zika não acabam no nascimento nem se limitam aos casos mais visíveis.
Quando a sociedade compreende que essas crianças podem apresentar dificuldades de desenvolvimento ao longo de toda a infância, fica mais fácil reconhecer a importância do acompanhamento contínuo, da estimulação precoce, da inclusão escolar e do apoio às famílias.
Além disso, informação de qualidade ajuda a combater a falsa ideia de que o Zika é um problema do passado, reforçando a necessidade permanente de prevenção, vigilância e cobrança por políticas públicas que garantam cuidado adequado às pessoas afetadas.



