Fármaco experimental brasileiro promete devolver movimento a pessoas tetraplégicas
Desenvolvido pela UFRJ a partir de proteína da placenta, o medicamento reacendeu a esperança no tratamento de lesões da medula.

Pesquisadores brasileiros apresentaram nesta semana avanços impressionantes e inéditos na reabilitação de pessoas com tetraplegia, condição que paralisa braços e pernas após lesão na medula espinhal.
O estudo, conduzido há mais de duas décadas, ainda está em fase experimental, mas já conseguiu devolver parte da mobilidade a pessoas e também a cães com lesão na medula espinhal, utilizando uma proteína extraída da placenta humana, chamada polilaminina, derivada da laminina.
O projeto uniu pesquisadores, médicos, fisioterapeutas e estudantes da UFRJ, com apoio da Faperj. Em 2021, um laboratório farmacêutico nacional transformou a pesquisa em um medicamento experimental.
Como aconteceu a descoberta?
Durante a fase embrionária, a laminina forma uma espécie de "rede microscópica no corpo", essencial para o desenvolvimento dos neurônios e a comunicação deles entre si. Com o passar do tempo, essa proteína se torna rara no organismo.
Assim, foi a partir da observação desse processo que uma bióloga, a doutora Tatiana Coelho de Sampaio da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), percebeu a possibilidade de recriar essa rede em laboratório, a partir de placentas humanas, produzindo a chamada polilaminina.

Tatiana Coelho de Sampaio é chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, do Instituto de Ciências Biomédicas. Foto: FAPERJ.
Em outras palavras essa proteína cria, como se fosse, um “andaime molecular” capaz de guiar o crescimento de novos neurônios e restabelecer a comunicação entre cérebro e corpo interrompida pela lesão medular.
Aplicação e Resultados
O medicamento é aplicado diretamente na medula dentro de um curto período após a lesão, potencializando a chance de regeneração nervosa.
Em testes com cães, os animais voltaram a andar após as lesões. Em ratos, os efeitos foram observados em apenas 24 horas.
Desde 2018, a polilaminina vem sendo aplicada em voluntários com lesões completas (nível A), que resultam em perda total de movimento. Em 8 pessoas, alguns já mostraram recuperação significativa: passaram do nível A para o nível C, ganhando força e sensibilidade em braços e pernas.
Alguns casos chamaram a atenção, como o de Bruno Drummond, vítima de um acidente em 2018, e que recebeu o tratamento nas primeiras 24 horas após o trauma e, em apenas um mês, conseguiu mexer o dedão do pé. Cerca de cinco meses depois, já caminhava normalmente e recuperou quase todo o movimento dos braços.
Há relatos de pacientes com lesões antigas que também tiveram melhorias significativas, embora os resultados variem conforme o tempo decorrido e o comprometimento com a reabilitação.
A voluntária Hawanna Cruz, tetraplégica há três anos devido a queda, relatou que após o tratamento, recuperar entre 60% e 70% do controle do tronco e recuperar parte da sensibilidade, como na bexiga, além de conseguir dirigir sua cadeiras de rodas e integrar a seleção de rugby em cadeira.
O que ainda está em aberto e os próximos passos
Apesar dos avanços, o estudo ainda está em estágio inicial e enfrenta algumas lacunas importantes:
↪︎ Segurança e efeitos colaterais: Após sete anos de observação, não foram relatados efeitos adversos graves ligados ao medicamento, e os sintomas como dores de cabeça ou infecção foram atribuídos à gravidade das lesões, e não ao tratamento.
↪︎ Doses e repetições: Ainda não se sabe se doses maiores ou aplicações repetidas aumentariam os benefícios. Isso precisa ser testado novamente desde o começo, inclusive em ratos e em laboratório.
↪︎ Aplicação em lesões antigas: Mesmo com resultados positivos em casos crônicos como o da Hawanna, há incerteza sobre a abrangência dessa eficácia.
Regulação e parcerias para ampliar a pesquisa
O processo de registro da patente da polilaminina levou 18 anos e, agora, a empresa apresentou oficialmente os resultados em São Paulo.
A Anvisa ainda não liberou formalmente a fase 1 de ensaios clínicos, etapa crucial para comprovar segurança e eficácia em maior escala.
Enquanto aguarda, a equipe já firmou parcerias com hospitais como o Hospital das Clínicas e Santa Casa de São Paulo, que estão prontos para iniciar os testes assim que autorizados.
A Polilaminina traz uma luz de esperança para milhares de pessoas que vivem com sequelas devastadoras de lesões medulares, inaugurando um caminho inovador para restaurar a independência e qualidade de vida, antes considerados quase impossíveis de recuperar.
Essa inovação reforça a força da ciência brasileira na busca por soluções que transformam vidas, transformando um órgão descartado após o parto em uma poderosa arma contra uma das condições mais limitantes do corpo humano.



