Gordura no fígado: o desafio silencioso que cresce no Brasil
Doença silenciosa, que muitas vezes só é descoberta tarde demais, avança sem alarde.

A gordura no fígado, apesar de parecer algo simples, se tornou um problema de saúde cada vez mais grave e muitas vezes silencioso no Brasil e no mundo.
A forma mais preocupante é a chamada esteato-hepatite não alcoólica, quando, além da gordura, há inflamação no fígado. Só que esse quadro costuma ser descoberto tardiamente, quando já há danos sérios.
O que acontece no fígado quando ele “engorda”
Para entender, imagine as células do fígado (os hepatócitos) como pequenos depósitos, e por diferentes razões, começam a acumular gordura (triglicerídeos). Esse acúmulo, chamado esteatose, não é um imediato sinal de grande dano, mas pode evoluir.
Se esse excesso de gordura provoca inflamação, o quadro se chama esteato-hepatite não alcoólica.
A inflamação pode desencadear fibrose, ou seja, cicatrizes no fígado; à medida que essa fibrose avança, o fígado endurece, e em casos graves isso vira cirrose, podendo até levar ao câncer de fígado.
Além disso, a gordura no fígado costuma andar junto com outros problemas, como resistência à insulina (quando o corpo não usa bem a insulina), obesidade, colesterol alto e pressão alta, conexões que tornam tudo ainda mais complexo.
Um problema crescente no Brasil (e no mundo)
Muitas pessoas sentem um peso na parte superior direita da barriga, notam que ficam estufadas depois das refeições ou percebem um cansaço persistente e dificuldade de concentração.
Esses sinais costumam ser atribuídos ao estresse ou à alimentação, mas em muitos casos refletem algo mais profundo: um fígado já aumentado e inflamado.
No mundo inteiro, a esteatose hepática aumenta muito por conta do sedentarismo, dietas ricas em açúcar e gorduras, e da epidemia de sobrepeso.
No Brasil, os dados locais reforçam esse cenário preocupante: estudos epidemiológicos apontam que entre 30 % e 35 % da população adulta pode ter gordura no fígado.
Em pessoas mais velhas, especialmente com síndrome metabólica (que inclui diabetes, obesidade e problemas de gordura no sangue), a prevalência é ainda maior. Um estudo em adultos brasileiros com mais de 55 anos encontrou esse acúmulo de gordura em 35,2% dos participantes.
Nas crianças e adolescentes, o problema também aparece: em estudo com adolescentes com sobrepeso, quase 28% apresentaram sinais de essa condição.
Além disso, em pacientes brasileiros com esta condição, há risco real de tumores hepáticos.
Uma pesquisa com unidades de hepatologia em seis estados brasileiros mostrou que muitos pacientes com carcinoma (tumor do fígado) tinham esteato-hepatite não alcoólica, mesmo sem cirrose.
Apesar do tamanho do problema, o conhecimento público ainda é limitado. De acordo com levantamento do Datafolha, 62% dos brasileiros ficariam muito ou extremamente preocupados com um diagnóstico de gordura no fígado.
Entretanto, quase um quarto da população não sabe nenhum método de exame para identificar esse acúmulo.
Assintomática nos primeiros estágios
Uma das maiores dificuldades é que a esteato-hepatite não alcoólica é, em muitos casos, assintomática nos primeiros estágios.
Isso significa que a pessoa pode ter gordura e inflamação no fígado sem sentir dor ou sinais claros. Assim, muitas vezes o diagnóstico surge por acaso, num exame de imagem (como ultrassom) feito por outro motivo, ou por elevação de enzimas hepáticas no exame de sangue.
Se você está ou conhece alguém com sobrepeso, diabetes, colesterol alto ou síndrome metabólica é importante considerar que a gordura no fígado pode não ser algo “inofensivo”.
Um diagnóstico precoce pode fazer toda a diferença. Fazer exames de rotina, como ultrassom do fígado e check-up de sangue, são fundamentais, por isso sempre mantenha consultas de rotina com seu médico.
E, mesmo sem sintomas, controlar peso, fazer atividade física, adotar uma dieta equilibrada (menos açúcar e gorduras ruins) são medidas fundamentais para prevenir e, em muitos casos, reverter o acúmulo de gordura.
Um marco na Europa: primeiro tratamento aprovado
Uma notícia importante para esse cenário veio da União Europeia recentemente. Pela primeira vez, um medicamento foi autorizado para tratar a esteato-hepatite.
Trata-se do Rezdiffra, cujo princípio ativo é o resmetirom, e o início da sua comercialização deve ocorrer ainda este ano.
O remédio age em um receptor de hormônio tireoidiano no fígado (THR-β), ajudando a reduzir o acúmulo de gordura, a inflamação e os danos. Nos Estados Unidos, a FDA já havia aprovado o Rezdiffra em março de 2024 para adultos com NASH e fibrose moderada.
No Brasil, o tratamento ainda é limitado, e embora medidas de estilo de vida sejam a base, há poucos medicamentos especificamente aprovados para a esteato-hepatite no país.
Muitos dos estudos de remédios ainda estão em andamento, e tratamentos mais avançados podem demorar a chegar por aqui, dependendo de ensaios clínicos, regulamentação e custo.
A falta de familiaridade com o termo “esteato-hepatite” e a falta de conhecimento sobre como diagnosticar a doença dificultam que ela seja detectada cedo.
A educação em saúde, ações de rastreamento, principalmente em pacientes de risco, e políticas de combate à obesidade e ao sedentarismo são caminhos essenciais para frear esse problema.



