Pular para o conteúdo

HomeEducação em Saúde

Março amarelo expõe a dor invisível da endometriose

Campanha alerta para atraso no diagnóstico e novas pesquisas que podem mudar a forma de detectar a doença.

5 min de leituraPublicado em 27/03/2026
WhatsAppLinkedIn
Março amarelo expõe a dor invisível da endometriose

Março ficou marcado pela cor amarela na luta contra a endometriose porque o mês concentra campanhas de conscientização.

Tais campanhas tentam furar um silêncio antigo: o de mulheres que convivem por anos com dor forte, cansaço, dificuldade para engravidar e sintomas intestinais ou urinários que muitas vezes são tratados como “normais”.

A doença afeta cerca de 10% das mulheres e meninas em idade reprodutiva no mundo, algo em torno de 190 milhões de pessoas, e no Brasil o Ministério da Saúde estima prevalência entre 5% e 15% nessa faixa etária.

Março Amarelo

O chamado Março Amarelo ganhou força justamente para chamar atenção para uma condição comum, mas ainda subdiagnosticada.

A cor amarela é usada mundialmente como símbolo de conscientização sobre endometriose, e campanhas no Brasil e no exterior aproveitam o mês para incentivar informação, acolhimento e procura por atendimento.

A endometriose acontece quando um tecido semelhante ao endométrio, a camada que reveste a parte de dentro do útero, cresce fora do lugar.

Esse tecido pode atingir ovários, trompas, intestino, bexiga e outras áreas da pelve. E como ele responde aos hormônios do ciclo menstrual, pode inflamar e provocar dor recorrente.

O atraso que rouba anos

Um dos maiores problemas da endometriose é o tempo até o diagnóstico. Estudos recentes mostram que esse atraso costuma ficar até 10 anos, mas com uma média de 6,8 anos e apresentando variação importante entre países e perfis de pacientes.

Por que isso acontece? Porque a dor menstrual intensa ainda é banalizada e os sintomas podem se parecer com problemas intestinais ou urinários. Além disso, nem sempre os exames iniciais mostram a doença com clareza.

Às vezes o problema existe há muito tempo, mas demora para alguém investigar do jeito certo.

No Brasil, o próprio Ministério da Saúde tem reforçado essa discussão. Em 2025, foi informado que os atendimentos por endometriose na atenção primária do SUS cresceram 76,2% em três anos, dado que impulsionou o debate sobre reconhecimento precoce dos sintomas.

Isso não significa, por si só, explosão de casos novos. Também pode refletir maior procura por cuidado e mais identificação de uma doença antes ignorada.

Não é só cólica: o peso na vida real

A endometriose não afeta apenas o corpo. Afeta rotina, trabalho, estudo, sono, vida sexual, fertilidade e saúde mental.

As diretrizes da ESHRE, Sociedade Europeia de Reprodução Humana, destacam que a endometriose tem grande impacto na qualidade de vida, no trabalho e nas relações sociais, o que ajuda a explicar por que diagnosticar cedo faz tanta diferença.

Revisões científicas recentes mostram impacto com piora de bem-estar físico, emocional e social. O material para pacientes da ESHRE também ressalta que muitas mulheres têm limitação nas atividades do dia a dia, além de dor, ansiedade e sofrimento emocional.

Sabe aquele dia em que a pessoa precisa reorganizar tudo por causa da dor? Para muita mulher com endometriose, isso deixa de ser exceção e vira rotina.

A doença pode causar cólica menstrual forte, dor pélvica crônica, ou seja aquela dor na parte baixa da barriga que persiste além da menstruação, dor na relação sexual, dor ao evacuar ou urinar e infertilidade.

A FEBRASGO lembra que a endometriose está frequentemente associada à infertilidade e que 30% a 50% das mulheres com a doença podem apresentar dificuldade para engravidar.

Do bisturi ao microbioma: o futuro do diagnóstico

Hoje, diagnosticar a endometriose ainda não é simples. Na prática, médicos usam uma combinação de avaliação clínica (história dos sintomas), exames de imagem como ultrassom e ressonância e, em alguns casos, a laparoscopia (cirurgia minimamente invasiva que permite ver o interior do abdômen) para confirmar a doença.

Ou seja, muitas vezes é como montar um quebra-cabeça com várias pistas, e nem sempre todas aparecem com clareza logo de início.

É justamente por isso que a ciência tem buscado caminhos mais simples e menos invasivos.

Uma das frentes mais comentadas envolve o microbioma, o conjunto de microrganismos que vivem naturalmente no nosso corpo, como bactérias “do bem”. Um estudo internacional publicado em 2024 encontrou diferenças nesse microbioma em três regiões: boca, intestino e vagina de mulheres com endometriose.

A ideia é que, no futuro, essas “assinaturas de microbiomas” possam ajudar a identificar a doença com exames mais simples, como coleta de saliva, secreção vaginal ou fezes.

Mas calma. Apesar de promissor, esse caminho ainda está em fase inicial. Uma revisão científica de 2025 mostrou que os resultados sobre microbioma ainda variam bastante entre estudos. Em outras palavras, a ciência já encontrou sinais importantes, mas ainda não existe um teste pronto para uso no dia a dia.

Além do microbioma, outra linha forte de pesquisa envolve os chamados biomarcadores, que são sinais medidos no sangue ou em outros fluidos do corpo que indicam a presença de uma doença.

Estudos recentes apontam que pode ser necessário um “combo” de marcadores, e não apenas um exame isolado, para melhorar a detecção precoce.

E tem mais novidade surgindo. Em 2026, resultados apresentados em congresso indicaram que um exame de sangue experimental conseguiu identificar casos de endometriose que não apareceram em exames de imagem tradicionais. É um avanço interessante, mas ainda precisa de validação antes de virar rotina.

Percebe-se então que, a ciência está correndo para transformar um diagnóstico que hoje pode levar anos em algo mais rápido, acessível e menos invasivo. Ainda não chegamos lá, mas os caminhos estão cada vez mais claros.

No Brasil, a novidade mais concreta no cuidado público veio do tratamento. Em 2025, o Ministério da Saúde informou a incorporação do desogestrel ao SUS para tratamento da endometriose, e também anunciou a oferta do DIU com levonorgestrel para situações específicas.

Isso não resolve o atraso diagnóstico, mas amplia opções para controlar sintomas e tentar frear a progressão da doença em parte das pacientes.

Tudo isso reforça uma ideia simples, mas poderosa: dor incapacitante não deve ser normalizada.

Quando a menstruação vira um engarrafamento na vida inteira da mulher, impedindo estudo, trabalho, lazer, sexo, sono ou planos de gravidez, o corpo está pedindo investigação.

E março, com seu amarelo chamativo, ajuda justamente nisso: fazer a conversa sair do sussurro e virar cuidado real.

💬 Você ou alguém próxima já demorou para perceber que aquela cólica podia ser endometriose?

Conte nos comentários o que te surpreendeu ou preocupou mais.

📣 Se essa notícia foi útil, deixe seu gostei e compartilhe com alguém que precisa saber disso!

Vanessa MirandaEditora Técnica e Enfermeira Mestre em SaúdeRevisado por: Diogo Strauch RibeiroMédico Clínico Geral — CRM 5293516-6
Cadastre-se na nossa newsletterReceba em primeira mão, todas as novidades e atualizações do Carteira de Saúde.
Carteira de Saúde © 2026 - Todos os direitos reservados