Nova estratégia pode preservar músculos no emagrecimento
Combinação de semaglutida com bimagrumab elevou a perda de gordura e preservou mais massa magra em estudo de fase 2 com adultos com obesidade.

As chamadas canetas emagrecedoras ajudam muita gente a perder peso, mas existe um detalhe importante nessa conta: nem todo quilo perdido vem só de gordura.
Um novo estudo sugere que combinar semaglutida com bimagrumab pode empurrar o corpo a “queimar” mais gordura e a preservar melhor a massa magra, que inclui músculos.
Isso importa porque músculo não é só estética, mas também essencial para ajudar na força, no equilíbrio, no metabolismo e na autonomia do dia a dia.
O que o estudo testou?
O trabalho, publicado na Nature Medicine, acompanhou 507 adultos com obesidade por 48 semanas, com extensão aberta até 72 semanas.
Os participantes foram divididos em nove grupos e receberam placebo, semaglutida isolada, bimagrumab isolado ou combinações dos dois em doses diferentes.
Grupo placebo é o grupo de participantes que recebe um tratamento “de mentira”, sem efeito ativo, para servir de comparação com quem recebe o medicamento real.
Entraram no estudo pessoas com IMC (índice de massa corporal, uma conta entre peso e altura usada como sinal de excesso de peso) de 30 ou mais, ou de 27 ou mais com ao menos uma complicação relacionada à obesidade, mas sem diabetes.
Vale ressaltarmos que, a semaglutida é um medicamento da classe dos agonistas de GLP 1, ou seja, remédios que imitam um hormônio intestinal e ajudam a reduzir o apetite e a ingestão de comida.
Já o bimagrumab é um anticorpo experimental, uma proteína criada para agir em alvos específicos do corpo, que mira receptores ligados ao músculo e ao tecido adiposo, ou seja, à gordura corporal. Ele ainda esta na fase de investigação em relação a sua utilização, não é um tratamento de rotina.
O que os números mostram?
Na semana 48 do estudo, os pesquisadores observaram que a perda média de peso foi de:
→ 14,2 kg com semaglutida (2,4 mg);
→ 9,3 kg com bimagrumab na dose mais alta;
→ 17,8 kg na combinação mais intensa.
Isto contra 3,3 kg no placebo. Já na semana 72, a combinação de dose alta atingiu 22,1% de redução do peso corporal, acima dos 15,7% observados com semaglutida (2,4 mg) sozinha.
Mas o ponto mais interessante não foi apenas “quanto” peso saiu. Foi de onde esse peso saiu. Na obesidade, olhar só o peso pode esconder uma diferença enorme entre perder gordura e perder músculo.
No estudo, a combinação mais forte levou a 45,7% de redução da massa de gordura na semana 72, contra 27,8% com semaglutida 2,4 mg sozinha.
Ao mesmo tempo, a massa magra (parte do corpo que inclui músculos, água, órgãos e ossos) caiu 2,9% na combinação, enquanto caiu 7,4% com semaglutida isolada. Em outras palavras, a combinação pareceu mudar a “qualidade” do emagrecimento.
Por que preservar músculo faz diferença?
A própria discussão do estudo lembra que, em estratégias de emagrecimento com dieta, cirurgia bariátrica ou remédios, a massa magra pode representar cerca de 25% a 40% do peso perdido.
Isso preocupa porque músculo funciona como um “motor de apoio” do corpo: ajuda a levantar da cadeira, subir escadas, carregar compras e manter a estabilidade.
O NIH, órgão de pesquisa em saúde dos Estados Unidos, destaca que perda muscular excessiva pode favorecer dificuldade de mobilidade, mais risco de quedas, fraturas e perda de independência, especialmente com o envelhecimento.
O que pode estar acontecendo no corpo?
Os autores descrevem que o bimagrumab age em uma via diferente da semaglutida. Enquanto a semaglutida ajuda a comer menos, o bimagrumab foi desenvolvido para reduzir gordura total e gordura visceral (a gordura mais profunda, que fica ao redor dos órgãos) e favorecer preservação muscular.
Como os mecanismos são diferentes, a soma dos dois pode ter produzido um efeito quase “complementar”.
Isso apareceu também na VAT, ou tecido adiposo visceral (gordura abdominal mais interna). Na semana 72, a redução estimada dessa gordura foi de 58,2% na combinação de alta dose, contra 35,8% com semaglutida 2,4 mg.
Esse dado chama atenção porque a gordura visceral costuma estar ligada a maior risco cardiometabólico.
Calma: promissor, mas ainda não é solução mágica
Os resultados são animadores, sim. Só que este foi um estudo de fase 2, feito para avaliar eficácia inicial e segurança antes de pesquisas maiores.
Os próprios autores dizem que os achados apoiam o desenvolvimento futuro da estratégia, e não a sua adoção imediata como padrão para todo mundo. Até aqui, o bimagrumab segue como medicamento experimental.
Também houve efeitos adversos. Com bimagrumab, os relatos mais comuns incluíram espasmos musculares, diarreia e acne.
Com semaglutida, apareceram com mais frequência náusea, diarreia, constipação e fadiga. Ou seja: não é uma combinação para uso por conta própria, nem um atalho “fitness” de internet.
Esse estudo reforça uma mudança importante na conversa sobre obesidade. Cada vez mais, a pergunta deixa de ser só “quantos quilos a pessoa perdeu?” e passa a ser também “perdeu o quê?”.
Peso continua importando, claro. Mas composição corporal, força, circunferência abdominal e capacidade funcional podem dizer mais sobre saúde real do que o número da balança sozinho.
Então, atenção! Se você usa ou pensa em usar remédio para obesidade, converse com um médico sobre metas que vão além do peso, incluindo gordura corporal, força e manutenção de massa magra.
No fim das contas, emagrecer melhor pode ser mais importante do que emagrecer mais.
💬 Se você fosse tratar obesidade, o que mais pesaria para você: perder quilos ou preservar músculos?
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