OMS aprova, pela 1ª vez, uso global de “canetas emagrecedoras” como parte do tratamento da obesidade
A nova diretriz da OMS reconhece a obesidade como doença crônica e recomenda a terapia com agonistas de GLP-1 em adultos, mas alerta que remédio sozinho não basta.

A Organização Mundial da Saúde oficializou sua primeira diretriz global para o uso de terapias baseadas em GLP-1 no tratamento da obesidade.
A organização definiu a obesidade como uma doença crônica e de longo prazo, abrindo caminho para que medicamentos usados até então sobretudo no diabetes, como semaglutida, tirzepatida e também liraglutida, sejam adotados como ferramenta de saúde pública contra o excesso de peso.
Com isso, a OMS envia um recado claro: a obesidade não é questão de estética ou estilo de vida, mas um problema de saúde sério que requer cuidados contínuos.
O que a diretriz recomenda?
→ A diretriz permite o uso prolongado (seis meses ou mais) de terapias com GLP-1 em adultos com obesidade:
Definidos pela OMS como aqueles com Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m², excetuando gestantes.
→ Além do remédio, recomenda que o tratamento seja combinado com terapia comportamental intensiva:
Orientação sobre dieta, atividade física, metas de saúde, acompanhamento regular e apoio profissional.
Isso porque, embora os medicamentos tenham eficácia, os benefícios tendem a ser maiores e mais duradouros quando acompanhados dessas mudanças.
→ A OMS reforça que remédios sozinhos não resolvem a epidemia global de obesidade:
É necessário um “ecossistema de cuidado”: políticas públicas, prevenção, promoção de ambientes saudáveis, cuidado contínuo e acesso justo.
Mudança de paradigma
Essas terapias, que incluem a semaglutida (usada nas marcas como Wegovy ou Ozempic) e a tirzepatida (como Mounjaro), foram desenvolvidas originalmente para tratar diabetes tipo 2.
Elas atuam “imitando” um hormônio natural, reduzindo o apetite, promovendo saciedade e retardando o esvaziamento do estômago, o que leva à diminuição da ingestão alimentar e consequente perda de peso.
Com essa diretriz, essas medicações deixam de ser vistas, oficialmente, apenas como “tratamento de diabetes” ou “moda” e passam a integrar um modelo de atenção à saúde da obesidade.
Especialistas afirmam que esse é um “ponto de inflexão” no enfrentamento da obesidade, com potencial para mudar a forma como serviços de saúde organizam prevenção e tratamento.
Avisos e desafios: por que a recomendação é condicional
A OMS classifica as recomendações como “condicionais”, o que significa que há benefícios, mas também incertezas e limitações a serem consideradas.
Entre os principais pontos a serem avaliados:
→ Falta de dados de longo prazo sobre segurança, manutenção dos resultados e efeitos após a interrupção do tratamento.
→ Alto custo e produção limitada dessas medicações, o que pode dificultar o acesso, causando desigualdades, especialmente em países de baixa e média renda.
Além disso, há preocupação com versões “manipuladas” ou falsificadas desses medicamentos, sem controle de qualidade, pureza ou eficácia, o que pode representar risco à saúde quando não há regulamentação rigorosa.
No Brasil, por exemplo, a agência reguladora local já adotou novas normas sanitárias para esses medicamentos, exigindo retenção de receita e controle especial desde junho de 2025.
O que há de novo: um olhar mais amplo sobre obesidade e saúde pública
Um dos aspectos mais inovadores da diretriz da OMS é a ênfase em transformar a obesidade em um problema de saúde e de equidade global.
A ideia de um “ecossistema de cuidado” inclui políticas públicas, prevenção, suporte contínuo, mudança no ambiente alimentar e de estilo de vida, e não apenas remédios.
Outra implicação importante é a inclusão recente dessas substâncias na lista de medicamentos essenciais da OMS para diabetes e agora a diretriz de obesidade pode pressionar governos e sistemas públicos de saúde a considerar a incorporação desses tratamentos em políticas públicas.

A publicação da diretriz da OMS marca um momento histórico, o qual pela primeira vez, há orientação global para uso de agonistas de GLP-1 como parte do tratamento da obesidade. Ao mesmo tempo, a organização deixa claro que não se trata de um “remédio mágico”.
Para que a promessa se concretize, com acesso justo, seguro e integrado, será necessário mais do que canetas injetáveis: será preciso vontade política, regulação, educação em saúde, apoio multidisciplinar e sistemas preparados para oferecer cuidado contínuo.



