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Por que tantos jovens estão em risco? A ciência busca respostas para prevenir o suicídio

Estudos recentes mostram por que os jovens viraram o centro da preocupação e como a ciência busca respostas mais rápidas contra o suicídio.

8 min de leituraPublicado em 02/09/2026
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Por que tantos jovens estão em risco? A ciência busca respostas para prevenir o suicídio

Setembro chegou e, com ele, a mobilização nacional do Setembro Amarelo, a maior campanha de prevenção ao suicídio do Brasil.

Em 2026, o tema escolhido pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) é "Escutar é estar presente", um convite direto para que a sociedade pare e ouça quem está sofrendo, sem pressa e sem julgamento.

A campanha chega em um momento cheio de novidades: nas últimas semanas, uma sequência de estudos trouxe dados inéditos sobre quem está mais vulnerável, por quê, e o que a medicina tem oferecido de mais recente para tratar quadros graves.

O tamanho do problema, em números

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou 15.507 mortes por suicídio em 2021, o equivalente a cerca de 42 por dia, a maioria entre homens.

É um problema de saúde pública, e a Organização Mundial da Saúde reconhece a prevenção do suicídio como prioridade global desde 2003, quando instituiu o dia 10 de setembro como o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.

Só que, olhando de perto, fica claro que o problema não afeta todo mundo do mesmo jeito.

Um retrato divulgado pelo relatório Global Burden of Disease (GBD), publicado na revista científica The Lancet e conduzido pelo Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME) da Universidade de Washington, mostra que a expectativa de vida global nunca foi tão alta, mas entre adolescentes e adultos jovens as mortes por suicídio, uso de álcool e overdose de drogas estão subindo.

Na América do Norte e na América Latina, esse é justamente o principal motor do aumento de mortes entre jovens. Segundo o pesquisador Damian Santomauro, do IHME, os casos de ansiedade cresceram quase 70% no mundo desde 2010, e os de depressão, quase 30%.

Por que os jovens viraram o centro da preocupação?

E mais uma pergunta: por que justamente essa faixa etária está puxando os números para cima?

Parte da resposta está em como o comportamento suicida se espalha dentro de grupos próximos, algo que os pesquisadores chamam de exposição social ao suicídio, que é quando alguém convive, de perto, com um caso de tentativa ou morte por suicídio.

Um estudo publicado na revista científica JAMA mostrou que a exposição a uma tentativa de suicídio dentro da rede de pessoas próximas quase triplica a chance de um jovem também tentar tirar a própria vida.

Mesmo quando os pesquisadores isolaram estatisticamente o efeito da depressão, o risco entre os expostos continuou 2,5 vezes maior.

Para Laiana Quagliato, psiquiatra e pesquisadora da UFRJ que comentou o estudo, isso mostra que o suicídio tem uma dimensão interpessoal forte, e essa dimensão pesa ainda mais na adolescência, fase em que os jovens observam e absorvem a forma como as pessoas ao redor lidam com o sofrimento.

Esse efeito de exposição ajuda a explicar por que o debate sobre redes sociais ganhou tanta força recentemente.

Nos Estados Unidos, a Meta (dona de Instagram e Facebook) fechou um acordo de aproximadamente US$ 16,7 bilhões com 29 estados americanos que a acusavam de projetar as plataformas para viciar adolescentes mesmo sabendo dos riscos à saúde mental.

Documentos do próprio processo mostraram que usuários adolescentes do Instagram viam uma vez e meia mais conteúdo relacionado a bullying, suicídio e violência do que usuários adultos.

Como parte do acordo, a empresa se comprometeu a mudanças como limites diários de uso e feeds menos personalizados para menores de idade.

No Brasil, o tema ficou ainda mais concreto com o caso de uma adolescente de 13 anos, no Mato Grosso do Sul, induzida ao suicídio por um grupo que abordava jovens no ambiente virtual, resultando em prisões.

O que a ciência descobriu sobre as causas na adolescência?

Se o ambiente digital é um pedaço do quebra-cabeça, ele está longe de ser o único. Um estudo brasileiro conduzido pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) acompanhou 2.060 jovens ao longo de 15 anos, dentro da Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC), uma das pesquisas mais relevantes do mundo sobre a origem de transtornos mentais na infância.

Os resultados mostram que 309 participantes, 15% da amostra, relataram ao menos uma tentativa de suicídio ao longo do estudo, com idade média de 17,8 anos na primeira ocorrência, e que meninas apresentaram risco cerca de três vezes maior do que meninos.

Os principais fatores de risco identificados foram sofrer traumas na infância (sobretudo bullying e abuso físico), ter um cuidador principal com histórico de comportamento suicida e apresentar transtornos de comportamento, como o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Ao medir o peso de cada fator evitável sobre o total de casos, o histórico de tentativa de suicídio do cuidador respondeu por 14,1% das tentativas observadas, seguido por transtornos como depressão e ansiedade no cuidador (11,6%) e por altos níveis de trauma na infância (11,5%).

Para Rodolfo Furlan Damiano, coordenador do estudo, o recado é de cautela e esperança ao mesmo tempo: "risco não é destino", já que nenhum desses fatores condena uma criança a tentar suicídio no futuro, e o caminho está em agir sobre o que pode ser modificado.

Outro estudo, conduzido por pesquisadores da Unifesp e da UFS com adolescentes de 14 a 19 anos atendidos em Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (Capsi) de São Paulo, ouviu os próprios jovens sobre o que os levou a tentar suicídio.

Os relatos apontaram um acúmulo de fatores: bullying, negligência emocional, discriminação, conflitos familiares, isolamento social, ansiedade, depressão e episódios de autolesão.

Um ponto chamou atenção dos pesquisadores: a autolesão, na maioria dos casos, apareceu antes da tentativa de suicídio, e não deve ser lida como "fase da adolescência" ou pedido de atenção, e sim como sinal de alerta real de sofrimento emocional intenso.

Então, quanto mais cedo esse sinal é levado a sério, maior a chance de intervir antes de uma crise mais grave.

Tratamentos que estão mudando o jogo

Do lado do tratamento, 2026 tem sido marcado por uma virada de foco na psiquiatria: em vez de esperar semanas para um antidepressivo fazer efeito, a ciência está atrás de respostas mais rápidas para quem está em risco imediato.

O destaque é a esketamina intranasal, nome comercial Spravato, já aprovada pela Anvisa para depressão resistente a tratamento.

Ela age de um jeito diferente dos antidepressivos tradicionais, já que em vez de mexer aos poucos nos neurotransmissores do humor, ela atua sobre o glutamato, uma substância química ligada à plasticidade do cérebro, ou seja, à capacidade de o cérebro "se reorganizar", e o efeito pode aparecer em horas, não em semanas.

Isso é especialmente relevante em quadros com risco de suicídio, quando não dá para esperar a resposta lenta de um remédio convencional.

Por outro lado, é um tratamento que exige aplicação supervisionada em ambiente clínico, com pelo menos duas horas de monitoramento depois de cada dose, e não é indicado como primeira opção para quem está começando um tratamento para depressão.

Outra frente em estudo, ainda mais experimental, são os psicodélicos, como a psilocibina.

Especialistas são claros ao dizer que os efeitos no cérebro são profundos, mas ainda não totalmente compreendidos, pois alguns pacientes melhoram bastante, outros não respondem, e uma minoria pode até piorar.

Por isso, o consenso médico é que esse tipo de tratamento só deve acontecer dentro de estudos clínicos ou ambientes médicos regulamentados, nunca por conta própria.

Some-se a isso o uso crescente de inteligência artificial e aplicativos de saúde mental para identificar sinais precoces de piora emocional, uma ferramenta que já ajuda profissionais a monitorar pacientes entre uma consulta e outra.

Nenhum desses estudos, por mais robustos que sejam, sugere que o suicídio tenha uma causa única ou uma solução simples.

O que eles mostram, juntos, é que o problema tem raízes sociais, familiares e biológicas, e que cada uma dessas raízes é um ponto possível de intervenção.

Então, ás vezes, a diferença entre uma tragédia e uma história de recuperação começa com algo pequeno: alguém que resolveu escutar.

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Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil, o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia, pelo telefone 188, além de chat e e-mail em cvv.org.br.

Fontes:

CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA (CVV). Campanha Setembro Amarelo 2026: "Escutar é estar presente". Disponível aqui.

LEONARDI, M. et al. Effectiveness of intranasal esketamine on suicidal ideation and depressive symptoms in patients with treatment-resistant depression: a longitudinal study. Journal of Clinical Medicine, v. 15, n. 1, e250, 2026. DOI: 10.3390/jcm15010250.

Institute for Health Metrics and Evaluation. Burden of 375 diseases and injuries, risk-attributable burden of 88 risk factors, and healthy life expectancy in 204 countries and territories, including 660 subnational locations, 1990–2023: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2023. The Lancet, London, v. 406, n. 10513, p. 1873–1922, 2025. Disponível aqui. Acesso em: 1 set. 2026.

AGÊNCIA AIDS (Folha de S.Paulo). Alta de mortes de jovens por suicídio e uso de drogas e álcool é crise emergente, alerta estudo global. Disponível aqui. Acesso em: 1 set. 2026.

CNN BRASIL. Meta fecha acordo de US$ 16 bilhões em processo por vício em redes sociais. Disponível aqui. Acesso em: 1 set. 2026.

AGÊNCIA FAPESP. Transtornos, traumas e histórico familiar são fatores associados a tentativa de suicídio entre jovens. Disponível aqui. Acesso em: 1 set. 2026.

Vanessa MirandaEditora Técnica e Enfermeira Mestre em SaúdeRevisado por: Diogo Strauch RibeiroMédico Clínico Geral — CRM 5293516-6
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