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Quando a vitamina vira veneno: excesso já leva brasileiros à UTI e não aumenta a longevidade

Estudos mostram que o consumo diário de multivitamínicos não reduz risco de morte e, no Brasil, abuso já causa intoxicações graves, cirurgias e até coma.

4 min de leituraPublicado em 02/09/2025
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Quando a vitamina vira veneno: excesso já leva brasileiros à UTI e não aumenta a longevidade

Multivitamínicos e soros vitamínicos ganharam espaço nas farmácias, clínicas e redes sociais com a promessa de mais energia, imunidade reforçada e até prevenção de doenças. Porém, a ciência e a prática clínica revelam um cenário bem menos otimista: longe de serem “elixires da vida”, o uso indiscriminado de vitaminas pode ser ineficaz e até perigoso.

Um estudo que acompanhou mais de 390 mil adultos saudáveis ao longo de até 27 anos mostrou que o uso diário de multivitaminas não reduziu o risco de morte por todas as causas, nem por câncer ou doenças cardiovasculares.

Mais ainda, os pesquisadores observaram um aumento de 4% no risco de mortalidade entre usuários diários no início do acompanhamento. Dado que, embora não se tenha mantido no longo prazo, levantou alertas sobre a segurança do consumo excessivo.

A realidade brasileira: da promessa ao risco de vida

No Brasil o cenário é alarmante. Reportagens e levantamentos recentes revelam que a chamada hipervitaminoseintoxicação por excesso de vitaminas — já levou pacientes a internações graves, inclusive em UTIs.

Casos emblemáticos ilustram o problema:

↪︎ Uma empresária da Bahia ficou 28 dias em coma após receber um “soro da imunidade”.

↪︎ Uma aposentada precisou de tratamento hospitalar intensivo após aplicar uma combinação de oito vitaminas para dores de osteoporose, desenvolvendo insuficiência renal grave.

↪︎ Uma corretora de imóveis em São Paulo passou por quatro cirurgias em decorrência de complicações ligadas a implantes hormonais e injeções de vitaminas.

De acordo com a Anvisa, apenas em 2024 foram 240 notificações de eventos adversos relacionados a suplementos vitamínicos, dos quais 28% foram considerados graves. Além disso, mais de 62 mil anúncios irregulares de suplementos foram retirados da internet.

Por que o excesso é tão perigoso?

O corpo humano precisa de vitaminas em quantidades específicas, assim tanto a falta quanto o excesso podem ser prejudiciais. O risco é maior com as vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K), que se acumulam no fígado e nos tecidos, dificultando a eliminação.

Se consumidas em excesso a:

↪︎ Vitamina A: pode causar alterações neurológicas, danos ao fígado, queda de cabelo e, em gestantes, risco para o bebê.

↪︎ Vitamina D: leva à hipercalcemia, provocando sede intensa, confusão mental, fraqueza muscular e calcificações em órgãos vitais.

↪︎ Vitamina E: aumenta o risco de hemorragias.

↪︎ Vitaminas do complexo B: o abuso da B6 causa neuropatias, enquanto altas doses de B12 podem gerar problemas cutâneos e digestivos.

Automedicação, marketing e cultura da pílula mágica

Especialistas apontam que a popularização da suplementação está ligada à automedicação incentivada por marketing agressivo nas redes sociais.

“O que vemos hoje é um problema de saúde pública. Já temos pacientes intoxicados em diálise e em UTI devido ao uso indiscriminado de vitaminas”, alerta o endocrinologista Clayton Macedo, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Influenciadores digitais, clínicas de estética e a promessa de “imunidade instantânea” estimularam uma verdadeira corrida às cápsulas e soros, especialmente após a pandemia.

O que a ciência recomenda?

A recomendação de médicos e nutricionistas é clara: a suplementação só deve ser feita com indicação profissional, após exames laboratoriais ou diagnóstico de carência nutricional.

Para a população em geral, uma alimentação equilibrada, rica em frutas, legumes, verduras, grãos integrais e proteínas magras já é suficiente para garantir as necessidades diárias de vitaminas.

Suplementos continuam tendo papel fundamental em grupos específicos, como gestantes (ácido fólico), idosos (vitamina B12 e D em alguns casos), pessoas com restrições alimentares (veganos, pacientes bariátricos) ou com doenças que afetam a absorção, mas com acompanhamento médico. Fora disso, a prática pode mais prejudicar do que ajudar.

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A promessa das vitaminas como “atalho para a saúde” está sendo desconstruída pela ciência e pela dura realidade dos hospitais. O que parecia inofensivo — tomar cápsulas coloridas ou aplicar soros “revitalizantes” — pode, em excesso, se transformar em veneno silencioso, capaz de gerar intoxicações graves, falência de órgãos e até risco de morte.

Em um cenário de informações rápidas e ofertas tentadoras, a lição é simples: não existe cápsula que substitua a boa alimentação, o acompanhamento médico e hábitos de vida saudáveis.

Vanessa MirandaEditora Técnica e Enfermeira Mestre em SaúdeRevisado por: Diogo Strauch RibeiroMédico Clínico Geral — CRM 5293516-6
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