Remédio para o coração vira “calmante moderno” entre ansiosos e preocupa médicos
Betabloqueadores voltam à moda como solução rápida contra a ansiedade, mas especialistas alertam: uso sem orientação pode mascarar sintomas e trazer riscos sérios à saúde.

Nos últimos meses, o uso de medicamentos cardíacos, especialmente os betabloqueadores, como o propranolol, tem se espalhado fora dos consultórios de cardiologia.
Nas redes sociais, vídeos e postagens de pessoas relatando que “o remédio acalma na hora” têm viralizado, estimulando a automedicação e o consumo sem prescrição.
Esse fenômeno não é novo, mas tem crescido entre jovens adultos e profissionais que enfrentam situações de alta pressão, como apresentações públicas, entrevistas ou provas.
A promessa de controlar o coração acelerado e as mãos trêmulas tem atraído quem busca um atalho para se sentir mais confiante. O problema, segundo especialistas, é que o alívio é apenas físico e passageiro.
Efeitos e riscos dos betabloqueadores
Os betabloqueadores funcionam bloqueando determinados receptores de adrenalina no corpo, o que reduz sintomas físicos típicos de ansiedade, como tremores, taquicardia ou elevação da pressão arterial.
Por isso, quem sofre de taquicardia, hipertensão ou arritmias costuma usá-los sob supervisão médica.
No entanto, os médicos explicam que embora eles ajudem o corpo a responder de modo menos intenso, não atacam a fonte da ansiedade. Assim, a preocupação, o medo ou tensão antecipatória permanecem e o equilíbrio do organismo pode ser comprometido.
Os efeitos adversos incluem queda de pressão, tontura, fadiga, falta de ar e até desmaios. Em casos mais graves, podem agravar doenças respiratórias, como asma e DPOC.
Além disso, ao esconder os sinais físicos de estresse, o medicamento pode atrasar diagnósticos de problemas cardíacos reais ou gerar uma falsa sensação de segurança.
A “muleta emocional” e a desinformação
Mesmo sem causar dependência química, o uso frequente desses remédios pode levar a uma dependência psicológica.
A pessoa começa a acreditar que só consegue enfrentar certas situações com a ajuda do comprimido, e não com seus próprios recursos emocionais. Com o tempo, isso reduz a autoconfiança e reforça o medo de sentir ansiedade.
Um fator que tem alimentado essa tendência é a forma como o tema circula na internet. Em plataformas de vídeos curtos, influenciadores falam sobre o efeito “mágico” do propranolol sem mencionar riscos, doses ou contraindicações.
A linguagem leve e a promessa de resultados rápidos criam a falsa impressão de que se trata de algo inofensivo.
Especialistas lembram que todo medicamento que altera o funcionamento cardiovascular precisa de acompanhamento médico. Um remédio que é seguro para um paciente cardíaco pode ser perigoso para alguém com outro perfil de saúde.
O que fazer em vez de recorrer ao remédio
A ansiedade, em níveis moderados, é uma reação normal do corpo. O problema surge quando ela começa a atrapalhar o dia a dia.
Nesses casos, a recomendação é buscar tratamento psicológico, que ensina a lidar com os gatilhos e a compreender os sinais do corpo.
Técnicas de respiração, atividade física regular, sono adequado e alimentação equilibrada também ajudam a regular a resposta do organismo ao estresse. Em alguns casos, o médico pode indicar medicamentos específicos para transtornos de ansiedade, diferentes dos betabloqueadores.
O uso de remédios para o coração como calmante não é apenas uma tendência perigosa, mas também um sintoma de uma sociedade que busca soluções imediatas para desconfortos naturais da vida.
Controlar o coração pode parecer o mesmo que controlar a ansiedade, mas são coisas diferentes. E quando a pressa fala mais alto que o cuidado, o risco é transformar um alívio momentâneo em um problema de saúde real.



