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Suplementos proteicos para menores: quando o excesso vira risco?

Sociedade Brasileira de Pediatria alerta para uso sem orientação em crianças e adolescentes.

5 min de leituraPublicado em 19/05/2026
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Suplementos proteicos para menores: quando o excesso vira risco?

A creatina e o whey protein deixaram de ser produtos “de academia” para adultos e passaram a ocupar lancheiras, rotinas esportivas e até prateleiras voltadas ao público infantil.

O problema é que, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), esse consumo tem acontecido muitas vezes sem necessidade real e sem acompanhamento profissional.

Em nota de alerta recentemente divulgada, a entidade afirma que não há indicação para o uso rotineiro desses suplementos em crianças e adolescentes saudáveis.

O documento chama atenção para possíveis impactos nutricionais, metabólicos e até comportamentais ligados ao consumo excessivo desses produtos.

O problema não é que whey ou creatina sejam “venenos” por si só. A preocupação acontece porque, na maioria das crianças e adolescentes saudáveis, a alimentação comum já consegue entregar toda a proteína necessária para crescimento e desenvolvimento.

Quando suplemento vira “comida do dia a dia”

O whey protein é uma proteína derivada do soro do leite. Já a creatina é um composto produzido naturalmente pelo organismo e também encontrado em carnes e peixes.

Ambos são vendidos como suplementos alimentares e costumam ser associados ao ganho de massa muscular e melhora de desempenho físico.

O ponto central do alerta não é demonizar os suplementos, mas discutir o contexto em que eles estão sendo usados.

Hoje, principalmente os adolescentes têm contato constante com vídeos de “rotina fitness”, influenciadores e promessas de corpo ideal nas redes sociais. Assim, muitos tendem a consumir esses produtos porque acreditam que precisam de mais proteína para crescer, ganhar músculo ou ter melhor desempenho físico.

Só que na maioria dos casos, o corpo deles já recebe proteína suficiente pela alimentação do dia a dia. Carnes, ovos, leite, feijão, iogurte e outros alimentos normalmente já conseguem suprir essa necessidade.

Ou seja, o problema não é apenas “usar suplemento”. A preocupação é adicionar mais proteína, de modo que, o corpo precisa lidar com esse excedente, aumentando o trabalho dos rins e do fígado para metabolizar e eliminar essas substâncias.

E isso ganha ainda mais atenção na infância e adolescência, porque o organismo ainda está em fase de crescimento e amadurecimento metabólico e hormonal.

A proteína já costuma estar sobrando

A SBP destaca que a necessidade de proteína na infância e adolescência frequentemente é superestimada.

Em média, crianças e adolescentes saudáveis precisam de cerca de 0,85 a 0,95 grama de proteína por quilo de peso ao dia, quantidade que normalmente é atingida com alimentação comum e equilibrada.

Traduzindo, o arroz, o feijão, os ovos, o leite, as carnes, o iogurte e as leguminosas já conseguem fornecer proteína suficiente para a maioria dos jovens.

Além disso, os suplementos oferecem nutrientes de forma concentrada e isolada. Diferente dos alimentos, eles não entregam junto fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos importantes para o desenvolvimento.

O que pode acontecer com o excesso?

Existem possíveis efeitos adversos ligados ao consumo excessivo e prolongado de proteína, especialmente em pessoas mais vulneráveis.

Entre os pontos levantados estão:

Hiperfiltração glomerular (quando os rins trabalham acima do normal para eliminar substâncias do organismo);

Aumento da produção de ureia;

Sobrecarga hepática (o fígado precisa trabalhar mais para metabolizar compostos nitrogenados);

Aumento da produção de amônia;

Alterações metabólicas relacionadas ao excesso proteico.

Os especialistas explicam que o excesso de proteína pode estimular substâncias como o IGF-1, um fator de crescimento semelhante à insulina, relacionado ao crescimento celular e ao metabolismo.

Nesse caso, o organismo entra em um estado de estímulo metabólico maior, mesmo sem precisar. Isso pode interferir no equilíbrio energético e favorecer processos como lipogênese, que é o armazenamento de gordura pelo corpo.

Mas é importante deixar claro que a SBP não está dizendo que tomar whey ocasionalmente vai causar doença em uma criança saudável. O alerta é sobre uso contínuo, banalizado e sem necessidade.

O marketing infantil preocupa especialistas

Outro ponto forte da nota é a forma como esses produtos passaram a ser vendidos para públicos cada vez mais jovens.

Hoje existem suplementos em formato de bala, goma, bebida saborizada e embalagens coloridas.

O visual lembra doces e produtos recreativos. Isso pode criar a falsa ideia de que o consumo é inofensivo ou até necessário para crescer saudável.

Pensa comigo: quando um suplemento começa a parecer sobremesa, fica muito mais difícil para crianças entenderem que aquilo deveria ser usado apenas em situações específicas.

A SBP também chama atenção para outro efeito silencioso: a substituição de refeições reais por suplementos.

Isso pode prejudicar a construção da relação saudável com a comida, além de incentivar padrões corporais irreais desde cedo.

Comer envolve cultura, convivência, memória afetiva e aprendizado. Não é apenas “bater meta de proteína”.

Existem situações em que suplementos podem ser indicados?

Sim. O documento reconhece que suplementação proteica pode ser necessária em algumas condições clínicas específicas, como:

• Desnutrição;

• Doenças crônicas;

• Síndromes de má absorção;

• Aumento importante da demanda metabólica.

Mas nesses casos o uso precisa ocorrer com avaliação individualizada e acompanhamento profissional.

Ou seja: não é porque um suplemento existe que ele automaticamente faz sentido para qualquer criança que pratica esporte.

O debate sobre whey e creatina na infância vai muito além da proteína. Ele fala sobre hábitos, pressão estética, marketing e a forma como crianças estão aprendendo a se relacionar com o próprio corpo.

Crescer saudável não depende de potes coloridos, mas de rotina equilibrada, alimentação adequada e acompanhamento responsável.

💬 E você, já percebeu como suplementos passaram a fazer parte cada vez mais cedo da rotina dos adolescentes? Conte nos comentários o que mais chamou sua atenção nesta notícia.

Vanessa MirandaEditora Técnica e Enfermeira Mestre em SaúdeRevisado por: Diogo Strauch RibeiroMédico Clínico Geral — CRM 5293516-6
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