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Transplante de células-tronco resulta em mais de seis anos sem HIV detectável

Evidência sugere que remissão pode ocorrer mesmo sem mutação genética rara, ampliando caminhos para a cura.

4 min de leituraPublicado em 09/12/2025
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Transplante de células-tronco resulta em mais de seis anos sem HIV detectável

Um estudo publicado na revista Nature descreve um homem que vive há mais de seis anos sem sinais detectáveis do HIV depois de receber um transplante de células-tronco para tratar um câncer hematológico.

O caso reforça que a remissão duradoura do vírus pode não exigir sempre um doador com a mutação genética rara chamada CCR5Δ32, um achado que amplia o entendimento sobre como o HIV pode ser controlado ou até erradicado no corpo humano.

O que aconteceu, em termos simples

O paciente, um homem de cerca de 60 anos tratado na Alemanha, recebeu um transplante alogênico de medula óssea, isto é, células-tronco de outra pessoa, para tratar uma leucemia.

Três anos após o transplante ele interrompeu os antirretrovirais, que são os medicamentos diários que mantêm o HIV sob controle.

Desde então, em exames consecutivos por mais de seis anos, os cientistas não detectaram vírus ativo no sangue nem em amostras intestinais, e testes que procuram vírus que ainda poderia replicar deram negativo. Os autores descrevem a situação como remissão sustentada.

Papel da imunidade do doador e da redução do reservatório viral

No transplante, o sistema imune do paciente é praticamente substituído pelo do doador. As novas células podem reconhecer e destruir células antigas que escondiam o HIV.

A quimioterapia e o próprio transplante também reduzem muito esse “reservatório viral”, que é onde o vírus fica adormecido.

Quando esses dois efeitos acontecem juntos, em raros casos, o HIV pode desaparecer a ponto de não ser mais detectado.

Histórico de remissões e sua importância

Historicamente, os casos de remissão ou "cura" do HIV associados a transplante de células-tronco envolveram doadores com duas cópias da mutação CCR5Δ32, que altera a proteína CCR5 usada por muitas variantes do HIV para entrar nas células, ou seja, essa proteína funcionar como porta de entrada do vírus.

Exemplos famosos incluem o paciente de Berlim e o paciente de Londres, que receberam doadores com as duas cópias mutantes e permaneceram sem HIV detectável por anos.

No novo caso, o doador não tinha aquela mutação rara considerada “ideal” para bloquear o HIV. Ele só tinha metade dela. Mesmo assim, o paciente ficou mais de seis anos sem sinais do vírus.

Isso mostra que a remissão não depende só dessa mutação específica e que outros fatores do transplante podem ter ajudado o corpo a eliminar as células onde o HIV se escondia.

Esse contexto amplia a esperança de que estratégias imunológicas ou terapêuticas que recapitulem esses mecanismos possam beneficiar mais pessoas no futuro.

Pouquíssimas pessoas no mundo tiveram remissão ou possível cura do HIV após transplante de células-tronco. Mesmo assim, os cientistas sempre analisam esses casos com cautela porque o vírus pode reaparecer anos depois.

O novo caso é considerado um dos cerca de sete relatos vinculados a transplantes, mostrando avanço importante, mas ainda longe de ser uma solução possível para todos.

Limitações e o que não significa para pacientes hoje

É importante destacar que transplantes de medula óssea são procedimentos arriscados, indicados apenas para doenças fatais como certos cânceres, e não são uma solução prática ou segura para tratar HIV em pessoas saudáveis.

O procedimento envolve quimioterapia intensiva e risco de rejeição, infecções e outras complicações sérias.

Portanto, a notícia não altera a recomendação atual de que pessoas com HIV continuem o tratamento antirretroviral, que transforma a infecção numa condição crônica manejável.

O valor do caso está em fornecer pistas científicas para estratégias menos perigosas e mais aplicáveis, como terapias que modifiquem o sistema imune, vacinas ou edição gênica.

Já há avanços paralelos em imunoterapias e combinações de vacinas e anticorpos que, em ensaios, permitiram controle do vírus por períodos prolongados sem medicação em alguns voluntários. Esses caminhos podem eventualmente produzir tratamentos que ofereçam remissão prolongada com risco aceitável.

O caso publicado na Nature representa um passo científico importante. Ele mostra que a cura do HIV é biologicamente possível em humanos e que múltiplos mecanismos, e não apenas a mutação CCR5Δ32 em dose dupla, podem levar à remissão.

Ainda assim, transformar essa descoberta em terapias seguras e acessíveis para milhões de pessoas exige muitos anos de pesquisa e testes clínicos.

Vanessa MirandaEditora Técnica e Enfermeira Mestre em SaúdeRevisado por: Diogo Strauch RibeiroMédico Clínico Geral — CRM 5293516-6
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