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Uta Frith reacende debate sobre o “espectro” do autismo

Pioneira na área diz que o termo ficou amplo demais. Entenda o que a ciência confirma, o que está em debate e o que isso muda.

5 min de leituraPublicado em 25/03/2026
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Uta Frith reacende debate sobre o “espectro” do autismo

Em entrevista ao The Times, a pesquisadora Uta Frith afirma que o conceito de “espectro do autismo” teria ficado tão amplo que, na prática, “perdeu o sentido”. A fala pesa porque não veio de alguém de fora do tema.

Frith é professora emérita de desenvolvimento cognitivo da University College London e uma das referências históricas na pesquisa sobre autismo e dislexia.

O ponto central da crítica é este: ao tentar abarcar perfis muito diferentes sob um mesmo guarda-chuva, o diagnóstico pode ganhar inclusão, mas perder precisão clínica e científica.

Em linguagem simples, é como usar a mesma etiqueta para situações muito distintas. Ajuda a organizar a prateleira, mas pode atrapalhar na hora de entender quem precisa de qual cuidado, com que urgência e por quê.

De onde vem essa discussão

O termo “Transtorno do Espectro Autista” (TEA) ganhou força com os manuais diagnósticos mais recentes, amplamente utilizados por profissionais da saúde.

No DSM-5, publicado pela Associação Psiquiátrica Americana, diagnósticos antes separados, como autismo, síndrome de Asperger e transtorno invasivo do desenvolvimento sem outra especificação, foram reunidos sob um mesmo guarda-chuva. A justificativa oficial foi melhorar a consistência entre serviços e clínicas, já que os subtipos anteriores não eram aplicados de forma uniforme.

DSM-5 é um manual que define e descreve os transtornos mentais, como um “guia detalhado” usado por profissionais para fazer diagnósticos.

Esse movimento também aparece na CID-11, a classificação internacional da Organização Mundial da Saúde (OMS).

CID-11 é a classificação que organiza e padroniza doenças e diagnósticos no mundo todo, como um “catálogo global” da saúde.

Hoje, tanto a OMS quanto o DSM tratam o autismo como um grupo diverso de condições do neurodesenvolvimento, ou seja, alterações no desenvolvimento do cérebro que afetam principalmente comunicação social, comportamento e processamento sensorial.

A própria OMS destaca que habilidades e necessidades variam muito, ou seja, algumas pessoas vivem com autonomia, enquanto outras precisam de apoio intenso ao longo da vida.

O que a pesquisadora está questionando?

A crítica de Frith não significa que ela esteja dizendo que o autismo “não existe” ou que pessoas diagnosticadas “não são autistas”.

O alvo dela é a utilidade do modelo atual de espectro como ferramenta clínica e de pesquisa. Ela argumenta que o conceito ficou amplo demais, incluindo perfis muito diferentes, o que pode dificultar tanto o atendimento quanto os estudos científicos.

Sabe aquele mapa que começa simples e útil, mas depois vai ganhando tantas camadas que fica difícil achar a rua principal? A crítica dela vai nessa linha.

Quando um mesmo rótulo reúne desde pessoas com grande necessidade de suporte e deficiência intelectual até adultos verbalmente fluentes, sem deficiência intelectual, mas com sofrimento social importante, o risco é o sistema de saúde tratar como semelhantes situações que, no cotidiano, são bem diferentes.

Por que a ciência também debate “heterogeneidade”?

Heterogeneidade significa variedade interna muito grande. Em outras palavras, pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter perfis bastante diferentes entre si.

Alguns pesquisadores veem isso como parte real do autismo. Outros alertam que parte dessa diversidade pode estar sendo ampliada por critérios diagnósticos muito abertos.

Um estudo de 2020 na revista científica Molecular Psychiatry alerta que essa grande variedade dentro do autismo nem sempre é algo “natural do corpo”, como se fosse uma característica biológica clara. Segundo os pesquisadores, isso pode acontecer porque os critérios de diagnóstico estão muito amplos e acabam misturando pessoas com autismo com outras que têm apenas alguns traços parecidos.

A crítica de Frith e de outros autores não é sobre negar sofrimento ou neurodivergência. É perguntar se o rótulo atual está ajudando a separar melhor os perfis ou se está virando um grande “balaio” clínico.

Mas o modelo de espectro também teve função importante

O conceito de espectro não surgiu por acaso. Ele ajudou a reconhecer que o autismo não se resume a um único retrato clássico.

Também ajudou a incluir pessoas antes ignoradas pelos sistemas diagnósticos, especialmente aquelas sem deficiência intelectual ou com apresentações menos óbvias na infância.

O DSM-5 adotou o guarda-chuva justamente porque os subtipos anteriores eram usados de forma inconsistente entre serviços, e a proposta era aumentar a confiabilidade do diagnóstico.

Nesse contexto, a Comissão da Lancet publicou sobre o futuro do cuidado e da pesquisa em autismo, defendendo abordagens personalizadas e em etapas, centradas nas necessidades concretas da pessoa e da família.

Isso conversa com uma ideia importante: talvez o problema não seja apenas o nome “espectro”, mas como o sistema transforma esse diagnóstico em cuidado real. Na prática, duas pessoas com o mesmo laudo podem precisar de suportes completamente diferentes.

O que isso muda para famílias, adultos e profissionais?

O que muda é o debate. E ele é relevante. A crítica pressiona a área a refinar melhor perfis, necessidades de suporte, presença ou não de deficiência intelectual, linguagem, comorbidades e funcionamento diário.

Em português claro, é sair do rótulo genérico e olhar mais para a pessoa concreta.

Também há um cuidado ético aqui. Quando tudo cabe numa mesma categoria, existe o risco de invisibilizar pessoas com necessidades mais intensas de apoio.

Por outro lado, endurecer demais o conceito pode excluir quem sofre e precisa de avaliação e suporte. É justamente essa corda esticada que Frith trouxe de volta ao debate.

E, até aqui, a ciência ainda não chegou a um consenso final sobre qual é o melhor equilíbrio entre inclusão diagnóstica e precisão clínica.

No fim das contas, a pergunta que fica não é só “o espectro perdeu o sentido?”. Talvez a pergunta mais útil seja: estamos conseguindo enxergar, por trás do rótulo, a pessoa real e o apoio de que ela precisa?

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Vanessa MirandaEditora Técnica e Enfermeira Mestre em SaúdeRevisado por: Diogo Strauch RibeiroMédico Clínico Geral — CRM 5293516-6
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